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Uma em 960. Era a chance de o sorteio devolver ao jogador a posição inicial que ele estudou a vida inteira, com torre no canto, cavalo ao lado e rei na coluna e. Bobby Fischer, campeão mundial de 1972 a 1975, apresentou a variante em Buenos Aires, em 1996. A ideia cabia numa frase: as peças da fileira de trás saem embaralhadas, e os peões continuam na segunda fileira. As pretas recebem a mesma arrumação, espelhada. O sorteio segue duas condições. Os bispos ficam em casas de cores diferentes, e o rei fica em alguma casa entre as duas torres, para que o roque continue possível. Com essas duas travas, sobram exatamente 960 arrumações, e por esse número a variante ganhou o nome de xadrez 960. Para quem chega ao tabuleiro, a mudança derruba anos de preparo. O livro de aberturas (a coleção de sequências iniciais já analisadas, lance por lance) foi escrito para uma posição só, a de número 518 na numeração de Reinhard Scharnagl, o enxadrista e escritor alemão que numerou as 960. Nas outras 959, quase ninguém tem lance decorado. O teste mais alto dessa troca veio em 2019. A FIDE, a federação internacional, organizou o primeiro mundial oficial de xadrez 960, com a fase final em Høvikodden, na Noruega. Na decisão, Wesley So, filipino que joga pelos Estados Unidos, enfrentou Magnus Carlsen, então campeão mundial do xadrez comum, e venceu por 13,5 a 2,5. Carlsen era o jogador mais preparado do planeta, e o preparo dele morava justamente na abertura. Sem a posição 518, a vantagem encolheu. O que decidiu o match foi o que sobra quando a memória não ajuda: contar peças, achar a casa fraca, cuidar do rei. Na notação usada aqui, R é o rei, D é a dama, B é o bispo, C é o cavalo e T é a torre. O número com ponto marca o lance das brancas, o número com reticências marca o lance das pretas, e o “x” indica captura. A Posição do Dia usa a arrumação de número 0, a primeira da lista de Scharnagl, e mostra um peão que, nela, nasce sem nenhum defensor. Continue lendo ↓
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