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Um bispo em a3 e a dama de Capablanca longe do rei
AVRO, 1938: Botvinnik entrega bispo e cavalo em dois lances, e o peão de e6 decide a partida sem pedir nada de volta.
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Botvinnik x Capablanca, AVRO, 1938
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U ma em 56. O torneio AVRO de 1938 reuniu oito jogadores em turno duplo, 56 partidas no conjunto, e só uma delas teve um bispo branco largado de graça em a3 diante de um ex-campeão mundial. Para quem olhava das mesas vizinhas, aquela peça solta tinha cara de descuido de Mikhail Botvinnik. AVRO era a sigla da rádio holandesa Algemene Vereniging Radio Omroep (Associação Geral de Radiodifusão), que bancou o evento e levou as rodadas para várias cidades da Holanda. Na lista estavam Paul Keres, Reuben Fine, Botvinnik, Alexander Alekhine, Max Euwe, Samuel Reshevsky, José Raúl Capablanca e Salo Flohr, praticamente a elite do xadrez daquela década reunida num salão só. Capablanca, cubano, campeão mundial de 1921 a 1927, tinha fama de quase não errar. Aos 50 anos, jogava com as pretas contra um soviético de 27 que ainda não tinha disputado título nenhum e que precisava de vitórias contra os veteranos para entrar na conversa sobre o próximo desafiante. A abertura foi uma Defesa Nimzoíndia (as pretas prendem o cavalo branco de c3 com o bispo em b4), e Botvinnik aceitou cedo um par de peões dobrados na coluna c em troca do centro. O plano branco era lento e fácil de ler: avançar f3 e e4, empurrar o peão central até e5 e, se desse, até e6. Capablanca respondeu atacando pela ala da dama e colheu peões por lá. A dama preta foi buscar material longe do próprio rei. No trigésimo lance, com o peão branco já plantado em e6, Botvinnik jogou 30.Ba3 e deixou o bispo ao alcance da dama adversária. Capablanca tomou. No lance seguinte, o cavalo branco pulou para h5 e se ofereceu também. Duas peças entregues em dois lances, e as brancas venceram sem recuperar nenhuma delas. A primeira seção abaixo refaz a posição lance a lance e mostra por que a dama em a3 ficou longe demais da casa e7. Continue lendo ↓
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I A Posição do Dia
O bispo que puxou a dama para a3
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Antes do trigésimo lance, Mikhail Botvinnik tinha, com as brancas, dama, cavalo em g3, bispo em b2 e um peão em e6. José Raúl Capablanca tinha dama, cavalos em f6 e b3, rei em g7 e um peão a mais na ala da dama, conquistado pela dama preta em a4 no décimo nono lance. O peão de e6 estava a duas casas da promoção (a troca do peão por dama quando ele chega à última fileira). Duas casas o separavam de e8, e a casa e7 era a porta. Quem controlasse e7 controlava a partida. A dama preta, nessa hora, era a única peça capaz de voltar para vigiar a ala do rei. O cavalo de f6 guardava as casas de entrada perto do rei preto, mas sozinho não segurava dama branca, cavalo e peão ao mesmo tempo. Botvinnik jogou 30.Ba3. O bispo saiu de b2 para uma casa atacada pela dama preta, sem proteção nenhuma. Na diagonal que vai de a3 a f8, ele mirava e7 e f8, as duas casas por onde o peão passaria. Recusar tinha custo. Com o bispo vivo em a3, o avanço e7 ganhava mais um apoio e a casa f8 ficava sob fogo. Capablanca preferiu tomar: 30...Dxa3. A dama preta foi parar no canto do tabuleiro, a seis colunas do próprio rei. |
O bispo em a3 não queria ganhar nada. Ele existia para levar a dama preta até o canto, e cada lance que ela gastasse voltando era um lance a menos na defesa de e7.
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A sequência que veio depois é curta e cabe numa lista: 1. 31.Ch5+ gxh5. O cavalo branco entrega a segunda peça com xeque. O peão preto de g6 toma, e a coluna g se abre na frente do rei preto. 2. 32.Dg5+ Rf8 33.Dxf6+ Rg8. A dama branca entra pela coluna aberta, dá xeque e toma o cavalo de f6, a única peça preta que protegia o rei. 3. 34.e7. O peão avança e ameaça promover em e8. A dama preta, presa em a3, só consegue responder com xeques. Aqui entrou o último recurso de Capablanca, o xeque perpétuo (uma série de xeques sem fim que obriga o empate). A dama preta saiu dando xeque: 34...Dc1+ 35.Rf2 Dc2+ 36.Rg3 Dd3+ 37.Rh4 De4+. Botvinnik levou o rei para a frente, em direção aos peões pretos. 38.Rxh5 De2+ 39.Rh4 De4+ 40.g4 De1+ 41.Rh5. Com o peão de g4 bloqueando a diagonal e o rei escondido em h5, os xeques acabaram. Capablanca abandonou, com a promoção inevitável no lance seguinte.
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II O Erro Mais Jogado
A peça de graça aceita sem contar os lances
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O erro mais jogado diante de uma peça oferecida é contar só o material. Quem aceita pergunta quanto ganhou, e esquece de perguntar quantos lances a dama vai gastar para voltar.
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Em partidas de clube, a peça solta costuma ser aceita no reflexo. Um bispo inteiro vale três peões, e o jogador que toma sente que ganhou a partida. A conta de material fecha a favor dele, e a tentação cresce na mesma medida. A conta que decide é outra: a de tempo, que os enxadristas chamam de tempi (plural de tempo, cada lance útil que um lado ganha ou perde). Em a3, a dama preta ganhou três pontos de material e perdeu, na prática, os lances de que precisava para defender o rei. Cada peça branca que chegou depois encontrou a ala do rei vazia. O erro de Capablanca começou antes do bispo em a3. Os comentaristas da partida apontam as viagens da dama preta pela ala da dama, atrás de peões brancos, como a origem da derrota. Quando o bispo apareceu, a dama já estava longe, e o sacrifício só cobrou uma distância que existia. Se Capablanca tinha defesa melhor no trigésimo lance, a literatura não fecha a questão. Os livros que analisaram a partida discordam sobre qual lance preto segurava a posição, e nenhum deles indica uma saída limpa depois de 30.Ba3. O que existe de consenso é a crítica ao plano anterior da dama. O segundo erro frequente é o inverso: recusar tudo por medo. O jogador que nunca aceita peça oferecida entrega material de graça em partidas em que o sacrifício era apenas um blefe. O critério está em olhar a posição da dama e do rei antes de decidir. ANTES DE ACEITAR UMA PEÇA OFERECIDA 1. Conte quantos lances a sua dama gasta para voltar à defesa do rei depois de tomar. Se forem três ou mais, a peça pode sair cara. 2. Veja quais peças adversárias ficam livres para atacar enquanto a dama viaja. Cavalo e dama juntos perto do seu rei são sinal de alarme. 3. Procure o peão adversário mais avançado e a casa por onde ele passaria. Se a peça oferecida controla essa casa, o sacrifício tem motivo. Capablanca, que escreveu livros ensinando a medir posição e não só material, perdeu justamente pela conta que costumava ensinar. A partida virou exemplo em manuais porque o derrotado era o jogador que menos se esperava ver caindo nela.
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