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Três peças na coluna c e Nimzowitsch sem lance para jogar
San Remo, 1930: Alekhine põe duas torres e a dama na mesma coluna e trava as pretas sem tomar uma peça.
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Alekhine x Nimzowitsch, San Remo, 1930
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U ma em oito. Das oito colunas do tabuleiro, Alexander Alekhine escolheu uma só para a partida contra Aron Nimzowitsch no torneio de San Remo, em 1930, e passou quase vinte lances empilhando peças nela. Para as pretas, aquela escolha transformava sete colunas em paisagem e uma em frente de batalha. Alekhine conduzia as brancas, e Nimzowitsch respondeu com a Defesa Francesa (a abertura que responde 1.e4 com 1...e6), na variante Winawer, em que o bispo preto sai cedo para b4 e prende o cavalo branco de c3. Nimzowitsch era o teórico da época, autor do livro que ensinava a geração inteira a pensar em colunas abertas e casas fortes. Jogava em casa, dentro do próprio assunto. A coluna c abriu no décimo terceiro lance, depois de uma troca de peões. Dali em diante, as brancas repetiram um único plano: torre para c2, a outra torre para c3, a dama recuando para c1, atrás delas. A formação ganhou apelido na literatura, Canhão de Alekhine (duas torres na frente e a dama atrás, todas na mesma coluna), porque funciona como um cano carregado apontado para o cavalo preto de c6 e para a casa c7, logo atrás dele. Nimzowitsch respondeu no mesmo idioma e dobrou as próprias torres na coluna c. Parecia equilíbrio: duas torres contra duas. A diferença estava atrás das torres pretas, onde nenhuma dama sustentava a coluna (a dama preta ficou em d7, fora dela), e no cavalo preto de c6, cravado na frente das torres: se ele saísse, a torre branca de c3 tomava a de c7. O desfecho surpreende quem conta material. Nimzowitsch abandonou no trigésimo segundo lance com as peças todas no tabuleiro, tendo perdido só um peão. Cada lance possível das pretas soltava uma casa que o canhão branco aproveitava, e jogar sem estragar nada tinha deixado de existir como opção. A palavra alemã para essa condição é zugzwang (a obrigação de mover quando qualquer movimento piora a posição). Em San Remo ela apareceu no meio-jogo, com damas e torres vivas, e não apenas nos finais de rei e peão onde costuma ser estudada. A primeira seção abaixo mostra como a coluna c se abriu e em que ordem as três peças brancas entraram nela. Continue lendo ↓
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I A Posição do Dia
Vinte lances para carregar o cano
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O torneio de San Remo de 1930 teve Alexander Alekhine, campeão mundial desde 1927, como vencedor, sem perder partida. A vitória contra Aron Nimzowitsch, então um dos candidatos ao título, virou a peça mais reproduzida da competição. As brancas abriram com 1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cc3 Bb4 4.e5 c5 5.Bd2 Ce7. O peão branco em e5 já tinha fechado o centro, e no sexto lance as pretas trocaram o bispo de b4 pelo bispo branco de d2. Era uma estrutura que Nimzowitsch defendia nos livros: centro travado, espaço no flanco do rei e o plano de atacar pela ala do rei. Alekhine olhou para a ala contrária. Com o centro fechado, a única coluna que podia abrir era a c, onde o peão preto de c5 enfrentava o peão branco de d4. Os dois lados trocaram peões nessa coluna, e no décimo terceiro lance a coluna c ficou sem peão de nenhuma cor. Desde então, cada lance branco servia ao mesmo objetivo. Uma torre veio para c2. A outra torre subiu para c3, na frente. A dama, que tinha passado por e3, voltou para c1, atrás das torres. Do outro lado, o rei preto caminhou até d8 só para proteger a casa c7, e as peças pretas passaram a existir para guardar a coluna. |
O canhão não precisa disparar. Com três peças apontadas para c6 e c7, qualquer peça preta que saia da defesa dessas casas entrega a coluna, e as pretas passam a jogar só para manter o que já tinham.
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Vale olhar a posição pelo lado preto. As duas torres de Nimzowitsch estavam em c7 e c8, com a dama fora da coluna, em d7. O cavalo de c6 ficava cravado na frente delas: o bispo branco, oscilando entre a4 e b5, ameaçava ganhá-lo, e se ele saísse a torre branca de c3 tomava a de c7. O peão preto de b5 já tinha caído no vigésimo oitavo lance. Nesse arranjo, as pretas tinham três tipos de lance e nenhum era bom. Mexer uma torre soltava a casa c7. Mexer o cavalo de c6 entregava a torre. Mexer o rei ou a dama tirava a última guarda da coluna. Alekhine só precisou esperar: jogou h4, levou o rei a h2 e avançou g3, lances sem ameaça nenhuma. Nimzowitsch gastou as respostas com avanços de peão na ala do rei, os únicos que não perdiam material de imediato. Depois de 32.g3 esses também acabaram, e ele abandonou.
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II O Erro Mais Jogado
A torre que entra na frente da dama
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O erro mais jogado com a coluna aberta é o inverso da ordem de Alekhine: a dama entra primeiro, na frente, e as torres ficam atrás. A peça mais valiosa vira ponta de lança e qualquer cavalo ou bispo que tocar nela ganha tempo para o adversário.
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Em partidas de clube, a dama costuma ser a primeira peça a chegar a uma coluna aberta porque é a mais rápida. Ela ocupa a coluna em um lance, enquanto as torres precisam de dois ou três. A velocidade é real, e o preço aparece logo depois. Uma dama na frente de torres pode ser expulsa por peça menor. Basta um bispo ou cavalo atacá-la para ela sair da coluna, e a torre de trás perde o apoio e a posição que esperava ocupar. O adversário paga um lance com peça que vale três e recebe de volta a iniciativa. Com as torres na frente, a conta inverte. Uma torre atacada por peça menor pode ser defendida pela outra ou pela dama de trás, e a troca de torre por peça menor dá ao dono da coluna uma vantagem de material conhecida como qualidade (a diferença entre torre e bispo ou cavalo). ORDEM DE ENTRADA NA COLUNA ABERTA 1. Primeira torre ocupa a casa mais recuada da coluna, na própria primeira ou segunda fileira. Ela protege as casas de trás e não fica exposta. 2. Segunda torre entra à frente da primeira ou atrás dela, dobrando. As duas torres se defendem mutuamente e respondem a qualquer ataque de peça menor. 3. A dama entra por último, atrás das torres. De lá ela sustenta o avanço e ameaça a casa de entrada sem ser alvo. O segundo erro frequente é contestar a coluna sem ter apoio para a disputa. Nimzowitsch fez exatamente essa jogada: dobrou as torres na coluna c para disputar o controle, mas sem uma casa de entrada própria no campo branco. As torres pretas ficaram presas à defesa de c6 e c7, em vez de ameaçar c3 ou c2. Disputar coluna só funciona quando há casa para invadir. Quem dobra torres apenas para impedir o adversário acaba com as próprias peças pesadas amarradas a uma tarefa defensiva, e foi dessa amarra que o zugzwang de San Remo nasceu. A saída para o defensor costuma estar fora da coluna disputada. Em vez de espelhar as torres adversárias, ele pode trocar uma peça pesada cedo, antes que o canhão fique pronto, ou abrir uma segunda coluna no flanco oposto e obrigar o atacante a dividir as peças. Esperar a formação completa e só então reagir é tarde demais.
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