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ED 009

Os dois bispos que Bauer aceitou em Amsterdã

Amsterdã, 1889, Lasker entrega um bispo em h7 e o outro em g7 com dois lances de intervalo, e a dama cobra a conta no bispo de b7.

Posição após 14...Cxh5: os bispos brancos de d3 e e5 apontados para h7 e g7, com o cavalo preto já fora de f6 e o rei preto rocado em g8.

Lasker x Bauer, Amsterdã 1889, após 14...Cxh5

 

Dois bispos valem seis peões na tabela de material. Os três peões que cobrem o rei rocado, f7, g7 e h7, valem três. A troca parece péssima em qualquer conta de mercearia, e é ela que decide a maior parte dos ataques ao roque curto.

A conta que vale num ataque ao rei não é de preço, é de chegada. Quantas peças suas alcançam a zona do rei adversário em dois lances, e quantas peças dele conseguem voltar pra lá no mesmo prazo.

Quando esse segundo placar é três contra zero, abrir a casa do rei deixa de ser um problema de material. Vira um problema de tempo, e tempo é a única moeda que o defensor não consegue fabricar no meio da partida.

Um bispo em d3 mira h7. Um bispo na diagonal comprida, saindo de b2 ou de e5, mira g7. As duas peças alcançam as duas casas da ponta do roque sem preparação nenhuma, bastam as diagonais desimpedidas.

A dama entra depois, e precisa de uma estrada até h5 ou g4 em um lance só. A torre da coluna f precisa de um degrau, f3, pra virar pra h3 e cair na coluna h com a dama já instalada lá em cima.

Do lado do defensor existe uma peça só capaz de estragar a receita inteira, e é a mais barata que ele tem. O cavalo de f6 cobre h5, h7 e g4 ao mesmo tempo, as três portas de entrada da dama.

Enquanto o cavalo estiver em f6, o ataque não sai do papel. Tirar ele de lá custa material, e o atacante paga esse preço adiantado, sem receber nada em troca no mesmo lance.

A partida de hoje é a certidão de nascimento do padrão. Um mestre alemão de vinte anos com as brancas, dois bispos entregues com dois lances de intervalo, um rei preto arrastado pra fora do roque, e uma conta que só fecha cinco lances depois, no outro lado do tabuleiro.

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I  A Posição do Dia

O roque desmontado em h7 e depois em g7

Um sacrifício aceito, outro aceito dois lances depois, e o rei preto longe de casa.

Amsterdã, agosto de 1889. Emanuel Lasker, vinte anos, tinha acabado de ganhar o torneio de Breslau que lhe deu o título de mestre e jogava seu primeiro torneio internacional forte. Do outro lado do tabuleiro, com as pretas, o mestre austríaco Johann Bauer.

A abertura é uma Bird: 1.f4 d5 2.e3 Cf6 3.b3 e6 4.Bb2 Be7. As brancas colocam o bispo na diagonal comprida antes de qualquer outra peça, e ela aponta pro canto onde o rei preto vai rocar.

5.Bd3 b6 6.Cf3 Bb7. Cada lado monta o mesmo desenho em espelho: bispo de casa clara mirando o roque do adversário, bispo de casa escura instalado na diagonal comprida.

7.Cc3 Cbd7 8.0-0 0-0. Os dois reis vão pro mesmo canto, e a partida vira uma corrida entre duas baterias idênticas.

9.Ce2 c5 10.Cg3 Dc7 11.Ce5. O cavalo branco ocupa a casa avançada, e o cavalo de g3 já cobre h5.

11...Cxe5 12.Bxe5. A recaptura com o bispo muda o tabuleiro: as brancas passam a ter bispo em d3 mirando h7 e bispo em e5 mirando g7.

12...Dc6. A dama preta troca de alvo, encosta no bispo de b7 e passa a bater em g2. O ataque contra o rei branco existe, e leva três lances a mais que o do outro lado.

13.De2 a6. As brancas defendem g2 e abrem a estrada da dama até h5. As pretas gastam o lance com um peão da ala, longe das três peças que já apontam pro próprio rei.

14.Ch5. O cavalo se oferece de graça na casa que o cavalo preto defende. Recusar também dói: as brancas capturam em f6 no lance seguinte e abrem o roque.

14...Cxh5. O cavalo preto sai de f6 pra cobrar o material, e a casa h7 fica sem o último olho em cima dela.

Com o cavalo fora de f6, as duas diagonais brancas chegam em h7 e em g7 ao mesmo tempo, e nenhuma peça preta consegue voltar pro roque em menos de três lances.

15.Bxh7+ Kxh7 16.Dxh5+. O primeiro bispo abre a casa e a dama entra com xeque, recuperando a peça oferecida no lance 14. 16...Rg8 devolve o rei pro canto.

17.Bxg7. O segundo bispo entra na casa que sobrou. Recusar entrega a torre de f8, e o rei continua sem cobertura de peão.

17...Kxg7 18.Dg4+ Kh7 19.Tf3. As brancas estão com dois bispos a menos por dois peões, e o lance 19 sustenta a conta: a torre sobe pelo terceiro degrau e a coluna h fica com dama e torre juntas.

19...e5 20.Th3+ Dh6 21.Txh6+ Kxh6. A dama preta se entrega pra frear o mate. Nesse instante o material está a favor das pretas: duas torres e dois bispos contra dama e torre.

22.Dd7. É aqui que a conta aberta no lance 15 se fecha. A dama ataca o bispo de e7 e o bispo de b7 do mesmo lugar, e um dos dois cai. 22...Bf6 23.Dxb7, e as brancas ficam com dama, torre e oito peões contra duas torres, um bispo e seis peões.

O bispo de b7 passou a partida inteira mirando g2, no canto oposto do tabuleiro. Ele nunca cobriu uma casa perto do próprio rei, e foi ele que pagou a conta no fim.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Capturar com a peça que segura o rei

O erro não é aceitar o sacrifício. É capturar com a única peça que estava olhando pras casas ao redor do próprio rei.

Na sua partida o erro chega disfarçado de lucro. Uma peça adversária aparece pendurada perto do seu roque, você toma, e o placar de material fica a seu favor por dois lances.

A pergunta que resolve a posição não é quanto vale a peça que você ganhou. É o que a sua peça estava fazendo antes de sair da casa dela pra capturar.

O cavalo de f6 é o defensor mais barato de um roque curto. Ele cobre h5, h7 e g4, as três portas de entrada da dama adversária, e cobre as três sozinho.

Quando esse cavalo captura em h5, em e4 ou em d5, ele deixa de cobrir as três casas. O material entra na sua coluna e a defesa sai da sua posição no mesmo lance.

Existe um teste de dois segundos que resolve a dúvida. Antes de capturar com uma peça que está perto do seu rei, tire ela do tabuleiro na cabeça e olhe quais casas ficaram sem dono. Se h7 e g7 ficarem sozinhas, a captura custa mais do que rende.

A segunda parte do erro acontece bem antes e é a mais fácil de evitar. Com três peças adversárias apontando pro seu roque, lance de peão na ala não faz parte da partida.

O peão que foi pra a6 não tirou ninguém do lugar, não trouxe defensor nenhum e devolveu o turno. Um lance naquela posição valia por um defensor, qualquer peça que voltasse pro setor do rei mudava a conta de chegada.

O terceiro pedaço do erro é o mais atraente dos três, porque parece iniciativa. A dama preta foi pra c6 montar bateria com o bispo de b7 contra g2, e a bateria estava correta: ela atacava mesmo.

O problema é o prazo. A bateria preta precisava de três lances pra virar ameaça concreta, e as brancas precisavam de um pra abrir h7. Dois ataques numa mesma posição não se anulam por serem parecidos, ganha o que chega antes.

Ataque contra ataque é uma corrida contada em lances, não em peças. Antes de montar o seu, conte quantos lances faltam pra ele virar xeque, e conte a mesma coisa do lado de lá.

Toda captura é uma mudança de endereço, e perto do próprio rei a casa que você abandona costuma valer mais que a peça que você leva.

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III  O Padrão que Se Repete

As quatro peças que o padrão exige

O padrão carrega nome próprio desde essa partida: sacrifício dos dois bispos. Ele não é lance de inspiração, é uma receita com quatro peças suas em posição e um veto do outro lado.

"A beleza de uma partida de xadrez costuma ser avaliada, e com razão, pelos sacrifícios que ela contém."

Rudolf Spielmann, The Art of Sacrifice in Chess, 1935

Spielmann usou um livro inteiro pra separar o sacrifício real do sacrifício aparente. O aparente devolve o material em poucos lances, por força; o real entrega a peça sem recibo e cobra bem depois.

O sacrifício dos dois bispos é do segundo tipo, com uma vantagem rara: ele tem checklist. Se os quatro itens estão na posição, entregar as duas peças deixa de ser aposta e vira cálculo curto.

1. Bispo na diagonal b1, h7 e bispo na diagonal a1, h8, os dois com o caminho limpo até h7 e g7. Um só não resolve, porque é o segundo que tira o rei do canto.

2. Dama com estrada livre até h5 ou g4 em um lance. Sem ela chegando junto com o xeque, o rei volta pro canto e a peça entregue não volta nunca.

3. Torre pronta pra subir. A coluna f com a casa f3 vaga é a rampa mais comum, e é ela que fecha a coluna h ao lado da dama.

O veto é o cavalo adversário em f6. Enquanto ele estiver lá, h5, h7 e g4 têm dono e a receita não sai do papel, e é exatamente por causa dele que o lance 14 da partida de hoje oferece um cavalo de graça.

O padrão volta em três paisagens, e vale reconhecer as três de longe. A primeira é a versão com as cores trocadas: São Petersburgo, 1914, Tarrasch entrega os dois bispos contra Nimzowitsch, primeiro em h2 e depois em g2, e o rei branco faz a mesma caminhada do rei de Bauer.

A segunda é a versão parcial, com um bispo só. Vale quando o rei já saiu do canto por conta própria ou quando a torre chega pela coluna g, e o segundo bispo fica de reserva cobrindo a casa de fuga.

A terceira aparece na sua partida sem aviso nenhum. O adversário empurra h6 pra ganhar espaço, o cavalo dele sai de f6 por qualquer motivo, e duas diagonais que estavam paradas há dez lances passam a valer a partida inteira.

Nas três o gatilho é o mesmo e cabe numa olhada rápida antes do cálculo. O defensor tirou o cavalo de f6, ou nunca colocou nenhum cavalo lá.

Dois bispos apontados pro mesmo roque não são vantagem de material, são um prazo correndo contra o defensor.

"Quantas das suas peças chegam perto do rei adversário em dois lances?"

 
 
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Na partida de Amsterdã, agosto de 1889, que deu origem ao sacrifício dos dois bispos, quem jogou com as pretas contra Lasker?

AWilhelm Steinitz
BSiegbert Tarrasch
CJohann Bauer
DCurt von Bardeleben

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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