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ED 021

O peão que Kasparov empurrou para b5

Moscou, 1985, Karpov montou a pinça de c4 e e4 e Kasparov devolveu um peão só para abrir a coluna b e soltar as peças pretas.

Posição com o peão branco livre em d5, cavalo preto em b4 e o peão preto recém avançado para b5, com as peças pretas ocupando as casas que a pinça de c4 e e4 bloqueava.

Karpov x Kasparov, Moscou 1985, após 15...b5

 

A Siciliana começa com uma troca desigual e todo o resto da abertura é consequência dela. O preto entrega o peão da coluna c pelo peão central branco, fica com um peão a mais no centro e ganha uma coluna semiaberta apontada para o flanco da dama adversária.

Existe um plano branco que se recusa a discutir o centro. Em vez de atacar o rei preto, ele fecha uma casa e passa a partida inteira cobrando o aluguel. Os peões vão para c4 e para e4, ficam parados lado a lado, e entre eles nasce um cone de controle sobre d5 que nenhuma peça preta atravessa.

A casa d5 parece um detalhe geográfico até você contar quantas peças pretas dependem dela. O cavalo de f6 quer d5 para pular. O bispo de g7 quer a grande diagonal aberta, e ela só abre quando algo ocupa d5. A dama preta quer c4 ou d5 para entrar. Sem essa casa, cada peça preta continua tecnicamente boa e praticamente sem emprego.

O preço que o branco paga tem nome e endereço. O peão de c4 não defende mais d4 nem b4, o bispo de casas claras perde metade das diagonais, e a coluna b fica com um peão em b2 que ninguém protege com peão nenhum. A pinça é forte na casa que fecha e frágil nas casas que abandona.

Daí sai a única alavanca preta que funciona de verdade. Não é o avanço no centro, que quase sempre entrega um peão fraco e nada em troca. É o peão da coluna b andando duas casas, depois de trocas certas, para atacar c4 e derrubar o pilar que sustenta o controle de d5.

O avanço parece modesto. Um peão de flanco andando contra uma estrutura que já dominou o centro. A força dele está no que acontece depois: se c4 cai ou avança, d5 volta a existir, e todas as peças pretas que estavam paradas recebem trabalho no mesmo lance.

O que separa quem executa o plano de quem só conhece o nome dele é a ordem das operações. Trocar as peças erradas antes do avanço mata o avanço, e trocar as certas transforma um lance de peão numa avalanche.

A posição de hoje é o exemplo mais caro da história do tema, porque o preto pagou um peão inteiro só para chegar à posição em que esse avanço existia.

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I  A Posição do Dia

Moscou, 1914, duas capturas e um só fim

Moscou, 1985. Anatoly Karpov e Garry Kasparov jogavam o segundo match entre os dois pelo título mundial, e o placar estava apertado quando começou a décima sexta partida. Karpov abriu com o peão do rei, Kasparov respondeu com a Siciliana, e por volta do sexto lance o tabuleiro já mostrava o desenho conhecido.

1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cc6 5.Cb5 d6 6.c4. Com o peão em c4 ao lado do peão de e4, Karpov montou a pinça no meio da abertura, e não por acidente. Ele era o maior especialista vivo em posições assim, em que a vantagem não vem de um ataque e sim de negar espaço ao adversário durante quarenta lances.

6...Cf6 7.C1c3 a6 8.Ca3. O cavalo branco recua para a beirada do tabuleiro, o que parece feio e é apenas provisório. A ideia é voltar por c2 e ocupar as casas que a pinça libera, com o preto sem nenhuma alavanca à vista.

8...d5. O lance que decidiu a partida foi jogado como oferta. O peão preto avança para a casa proibida, entra na zona coberta pelos dois peões brancos e convida as capturas em cadeia.

9.cxd5 exd5 10.exd5. Quando a poeira baixa, o branco tem um peão a mais e um peão livre em d5. O preto tem uma coluna e aberta, um cavalo pronto para entrar e, principalmente, nenhum peão branco em c4.

10...Cb4 11.Be2 Bc5 12.O-O O-O 13.Bf3 Bf5 14.Bg5 Te8 15.Dd2. As peças pretas ocupam em quatro lances as casas que a pinça bloqueava. O cavalo de b4 mira d3, o bispo de f5 tem a diagonal inteira, as torres olham a coluna e, e o material a menos ainda não incomodou ninguém.

15...b5. O peão que dá nome à edição avança agora, com a coluna b aberta e o campo branco cheio de casas escuras sem dono. A ameaça não é ganhar material, é levar o cavalo de b4 até d3 com apoio permanente.

16.Tad1 Cd3. O cavalo preto se instala no meio do campo branco e não sai mais de lá. Nenhum peão branco pode expulsá-lo, porque o peão de c2 já não existe e o peão de e2 virou o peão livre de d5.

O cavalo em d3 ficou conhecido pelo apelido que ganhou depois, e o apelido descreve exatamente a função: uma peça só, encravada, com tentáculos em oito casas ao mesmo tempo. Karpov jogou o resto da partida com uma torre presa, um bispo sem diagonal e um peão livre que nunca andou.

Kasparov venceu essa partida, e ela virou o argumento definitivo de que a pinça de c4 e e4 não é uma sentença. Ela é um contrato: enquanto o peão de c4 estiver de pé, o preto obedece; no instante em que ele cai, a conta se inverte.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Adiar o lance que abre a saída do rei

O erro não é entrar na pinça. É tratá-la como uma posição apertada qualquer e sair trocando peças no atacado, achando que menos madeira no tabuleiro significa menos aperto.

A intuição parece razoável e é falsa exatamente aqui. Em posição sem espaço, trocar peças costuma aliviar, porque as que sobram ganham casas. Contra a pinça de c4 e e4 a lógica se inverte, porque o que aperta o preto não é a falta de casas para as peças, é a falta de uma alavanca de peão.

Cada troca que o preto faz sem propósito reduz o número de peças capazes de apoiar o avanço em b5. Quando chega a hora do lance, ele tem espaço de sobra e ninguém para empurrar, e o peão que avança sozinho no flanco vira alvo em vez de aríete.

COMO PREPARAR O AVANÇO EM b5

1. Troque os cavalos que atacam d5, nunca os que atacam c4. O cavalo branco que ocupa d5 é o que dá sentido à pinça inteira; o cavalo preto que pode chegar a b4 ou a d3 é o que sobrevive ao avanço e coleta o resultado dele.

2. Coloque a torre na coluna c antes de mexer no peão de b. O peão em c4 precisa estar sob duas pressões ao mesmo tempo, a do peão que chega e a da torre que já está lá, senão o branco simplesmente captura em b5 e devolve a estrutura ao normal.

3. Fixe o peão da coluna a antes de avançar. Com o peão preto em a6 sustentando b5, a captura branca em b5 abre a coluna a favor do preto; sem esse apoio, o avanço custa um peão e não abre nada.

O segundo item é o que mais se perde na prática. O jogador vê a coluna c semiaberta desde o primeiro lance da Siciliana e esquece de usá-la, porque a torre parece bem em outro lugar e o peão de c4 parece defendido demais para ser atacado.

Existe um segundo erro, mais caro, do lado de quem monta a pinça. O branco trata os dois peões como uma muralha que se defende sozinha e leva as peças menores para o flanco do rei, atrás de um ataque que a estrutura não sustenta.

A pinça é uma posição de bloqueio, e bloqueio pede peças em casa. Um cavalo em c2 ou em d5, uma torre na coluna c, o bispo de casas claras vigiando a diagonal que termina em b5. Se essas peças saem, o preto avança e a estrutura desmonta sem nenhum sacrifício espetacular.

A régua prática vale para os dois lados e cabe numa pergunta. Antes de qualquer troca, veja quem fica responsável pela casa c4 depois dela, e se a resposta for ninguém, a troca não é alívio, é o começo do fim da pinça.

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III  O Padrão que Se Repete

A peça que defende a primeira fileira

O padrão não pertence à Siciliana. Ele aparece toda vez que um jogador usa peões para negar uma casa central ao adversário e aceita, em troca, ficar sem peões em outra região do tabuleiro.

"A restrição vem antes do bloqueio, e o bloqueio vem antes da destruição."

Aron Nimzowitsch, Meu Sistema, 1925.

A sequência descreve o lado branco com precisão. Restringir é impedir o avanço central preto, bloquear é ocupar a casa com uma peça que não pode ser expulsa, destruir é o ataque que só vem depois, quando o adversário já não tem contra-jogo. Pular a primeira etapa e correr para a terceira é o erro clássico.

Do lado preto, o mecanismo de defesa aparece em três formatos, e vale reconhecer os três de longe.

1. Atacar o peão que sustenta o bloqueio, nunca a casa bloqueada. A casa d5 não pode ser conquistada por peça, porque dois peões a defendem. O peão de c4 pode ser atacado por peão, por torre e por bispo ao mesmo tempo.

2. Abrir a coluna em que o adversário não tem peão de apoio. A coluna b do branco tem um peão em b2 que nenhum outro peão protege, e é por lá que a torre preta entra depois das trocas.

3. Manter no tabuleiro a peça que ocupa o buraco. Quando a pinça abandona d3 ou b4, uma peça preta instalada nessas casas vale mais que material, porque nenhum peão consegue expulsá-la depois.

A defesa branca contra os três é a mesma e é barata. Um peão em b3 sustentando c4 e um cavalo em c2 vigiando b4 resolvem os três formatos de uma vez, e custam dois lances de preparação no meio do jogo.

Existe uma versão do padrão para finais. Com poucas peças, a pinça de c4 e e4 deixa de ser prisão e vira vantagem simples de espaço, porque o preto já não tem peças suficientes para montar o avanço com apoio.

Karpov construiu a maior parte da carreira dele nessa ideia: restringir, bloquear, esperar. Kasparov mostrou em Moscou que o método tem um preço fixo, e que o preço é sempre a mesma casa branca sem peão de guarda, esperando que alguém do outro lado pague um peão para chegar até ela.

Antes de fechar uma casa central com dois peões, pergunte não o que eles impedem, mas qual casa do seu próprio campo ficou sem peão para defendê-la.

 
 
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Em Moscou, 1985, no segundo match entre Karpov e Kasparov, a partida em que Kasparov jogou 8...d5 e depois o peão 15...b5 foi a de número:

A12ª partida
B14ª partida
C16ª partida
D18ª partida

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