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O peão que Kasparov empurrou para b5
Moscou, 1985, Karpov montou a pinça de c4 e e4 e Kasparov devolveu um peão só para abrir a coluna b e soltar as peças pretas.
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Karpov x Kasparov, Moscou 1985, após 15...b5
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A Siciliana começa com uma troca desigual e todo o resto da abertura é consequência dela. O preto entrega o peão da coluna c pelo peão central branco, fica com um peão a mais no centro e ganha uma coluna semiaberta apontada para o flanco da dama adversária.
Existe um plano branco que se recusa a discutir o centro. Em vez de atacar o rei preto, ele fecha uma casa e passa a partida inteira cobrando o aluguel. Os peões vão para c4 e para e4, ficam parados lado a lado, e entre eles nasce um cone de controle sobre d5 que nenhuma peça preta atravessa.
A casa d5 parece um detalhe geográfico até você contar quantas peças pretas dependem dela. O cavalo de f6 quer d5 para pular. O bispo de g7 quer a grande diagonal aberta, e ela só abre quando algo ocupa d5. A dama preta quer c4 ou d5 para entrar. Sem essa casa, cada peça preta continua tecnicamente boa e praticamente sem emprego.
O preço que o branco paga tem nome e endereço. O peão de c4 não defende mais d4 nem b4, o bispo de casas claras perde metade das diagonais, e a coluna b fica com um peão em b2 que ninguém protege com peão nenhum. A pinça é forte na casa que fecha e frágil nas casas que abandona.
Daí sai a única alavanca preta que funciona de verdade. Não é o avanço no centro, que quase sempre entrega um peão fraco e nada em troca. É o peão da coluna b andando duas casas, depois de trocas certas, para atacar c4 e derrubar o pilar que sustenta o controle de d5.
O avanço parece modesto. Um peão de flanco andando contra uma estrutura que já dominou o centro. A força dele está no que acontece depois: se c4 cai ou avança, d5 volta a existir, e todas as peças pretas que estavam paradas recebem trabalho no mesmo lance.
O que separa quem executa o plano de quem só conhece o nome dele é a ordem das operações. Trocar as peças erradas antes do avanço mata o avanço, e trocar as certas transforma um lance de peão numa avalanche.
A posição de hoje é o exemplo mais caro da história do tema, porque o preto pagou um peão inteiro só para chegar à posição em que esse avanço existia.
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I A Posição do Dia
Moscou, 1914, duas capturas e um só fim
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Moscou, 1985. Anatoly Karpov e Garry Kasparov jogavam o segundo match entre os dois pelo título mundial, e o placar estava apertado quando começou a décima sexta partida. Karpov abriu com o peão do rei, Kasparov respondeu com a Siciliana, e por volta do sexto lance o tabuleiro já mostrava o desenho conhecido.
1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cc6 5.Cb5 d6 6.c4. Com o peão em c4 ao lado do peão de e4, Karpov montou a pinça no meio da abertura, e não por acidente. Ele era o maior especialista vivo em posições assim, em que a vantagem não vem de um ataque e sim de negar espaço ao adversário durante quarenta lances.
6...Cf6 7.C1c3 a6 8.Ca3. O cavalo branco recua para a beirada do tabuleiro, o que parece feio e é apenas provisório. A ideia é voltar por c2 e ocupar as casas que a pinça libera, com o preto sem nenhuma alavanca à vista.
8...d5. O lance que decidiu a partida foi jogado como oferta. O peão preto avança para a casa proibida, entra na zona coberta pelos dois peões brancos e convida as capturas em cadeia.
9.cxd5 exd5 10.exd5. Quando a poeira baixa, o branco tem um peão a mais e um peão livre em d5. O preto tem uma coluna e aberta, um cavalo pronto para entrar e, principalmente, nenhum peão branco em c4.
10...Cb4 11.Be2 Bc5 12.O-O O-O 13.Bf3 Bf5 14.Bg5 Te8 15.Dd2. As peças pretas ocupam em quatro lances as casas que a pinça bloqueava. O cavalo de b4 mira d3, o bispo de f5 tem a diagonal inteira, as torres olham a coluna e, e o material a menos ainda não incomodou ninguém.
15...b5. O peão que dá nome à edição avança agora, com a coluna b aberta e o campo branco cheio de casas escuras sem dono. A ameaça não é ganhar material, é levar o cavalo de b4 até d3 com apoio permanente.
16.Tad1 Cd3. O cavalo preto se instala no meio do campo branco e não sai mais de lá. Nenhum peão branco pode expulsá-lo, porque o peão de c2 já não existe e o peão de e2 virou o peão livre de d5.
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O cavalo em d3 ficou conhecido pelo apelido que ganhou depois, e o apelido descreve exatamente a função: uma peça só, encravada, com tentáculos em oito casas ao mesmo tempo. Karpov jogou o resto da partida com uma torre presa, um bispo sem diagonal e um peão livre que nunca andou.
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Kasparov venceu essa partida, e ela virou o argumento definitivo de que a pinça de c4 e e4 não é uma sentença. Ela é um contrato: enquanto o peão de c4 estiver de pé, o preto obedece; no instante em que ele cai, a conta se inverte.
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II O Erro Mais Jogado
Adiar o lance que abre a saída do rei
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O erro não é entrar na pinça. É tratá-la como uma posição apertada qualquer e sair trocando peças no atacado, achando que menos madeira no tabuleiro significa menos aperto.
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A intuição parece razoável e é falsa exatamente aqui. Em posição sem espaço, trocar peças costuma aliviar, porque as que sobram ganham casas. Contra a pinça de c4 e e4 a lógica se inverte, porque o que aperta o preto não é a falta de casas para as peças, é a falta de uma alavanca de peão.
Cada troca que o preto faz sem propósito reduz o número de peças capazes de apoiar o avanço em b5. Quando chega a hora do lance, ele tem espaço de sobra e ninguém para empurrar, e o peão que avança sozinho no flanco vira alvo em vez de aríete.
COMO PREPARAR O AVANÇO EM b5
1. Troque os cavalos que atacam d5, nunca os que atacam c4. O cavalo branco que ocupa d5 é o que dá sentido à pinça inteira; o cavalo preto que pode chegar a b4 ou a d3 é o que sobrevive ao avanço e coleta o resultado dele.
2. Coloque a torre na coluna c antes de mexer no peão de b. O peão em c4 precisa estar sob duas pressões ao mesmo tempo, a do peão que chega e a da torre que já está lá, senão o branco simplesmente captura em b5 e devolve a estrutura ao normal.
3. Fixe o peão da coluna a antes de avançar. Com o peão preto em a6 sustentando b5, a captura branca em b5 abre a coluna a favor do preto; sem esse apoio, o avanço custa um peão e não abre nada.
O segundo item é o que mais se perde na prática. O jogador vê a coluna c semiaberta desde o primeiro lance da Siciliana e esquece de usá-la, porque a torre parece bem em outro lugar e o peão de c4 parece defendido demais para ser atacado.
Existe um segundo erro, mais caro, do lado de quem monta a pinça. O branco trata os dois peões como uma muralha que se defende sozinha e leva as peças menores para o flanco do rei, atrás de um ataque que a estrutura não sustenta.
A pinça é uma posição de bloqueio, e bloqueio pede peças em casa. Um cavalo em c2 ou em d5, uma torre na coluna c, o bispo de casas claras vigiando a diagonal que termina em b5. Se essas peças saem, o preto avança e a estrutura desmonta sem nenhum sacrifício espetacular.
A régua prática vale para os dois lados e cabe numa pergunta. Antes de qualquer troca, veja quem fica responsável pela casa c4 depois dela, e se a resposta for ninguém, a troca não é alívio, é o começo do fim da pinça.
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