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ED 005

O peão em h6 que travou Sämisch

Copenhague, 1923, um lance de peão que não ataca nada tira das brancas o último lance seguro, e Sämisch abandona no 25 com quase tudo no tabuleiro.

Tabuleiro visto de cima no lance 25, com o peão preto recém-chegado a h6, as duas torres pretas na coluna f e as peças brancas todas presas no próprio campo.

O peão preto chega a h6 e as brancas ficam sem lance

 

Todo manual de xadrez trata o lance como um bem. Ganhar um tempo é bom, perder um tempo é ruim, quem tem a iniciativa dita o jogo. A vez de jogar entra sempre na coluna do crédito, nunca na do débito.

Existe uma família de posições em que a coluna se inverte. As peças estão bem colocadas, a defesa está de pé, nada precisa mudar. Só que passar a vez não é permitido no xadrez. Alguma coisa tem que andar, e tudo que anda estraga alguma coisa.

O alemão tem uma palavra pra essa situação, zugzwang, a compulsão de jogar. Ela aparece nos manuais sempre no mesmo lugar: o final de reis e peões, tabuleiro quase vazio, o rei obrigado a recuar e entregar a casa que estava guardando.

Guardar o zugzwang na gaveta dos finais custa caro. O jogador aprende a reconhecer a obrigação de jogar quando restam seis peças, e não reconhece a mesma obrigação quando restam vinte e cinco. O mecanismo é o mesmo, muda a lotação do tabuleiro.

No meio-jogo ele nasce de um acúmulo lento. Cada peça sua recebe um encargo, cada peão seu perde a casa livre à frente, e a lista de lances que não custam nada encolhe sem que ninguém faça a conta. Quando ela chega a zero, o relógio continua correndo.

A conta que falta é curta e quase ninguém faz: quantos lances a minha posição ainda aceita sem quebrar nada. Peça que se mexe abre a casa que estava ocupando. Peão que anda nunca volta. O estoque é finito e ele só diminui.

Repare que a conta não fala de material. Uma posição pode ter peça a mais e já estar no fundo do estoque.

A posição de hoje é o exemplar mais citado da história do xadrez. As pretas jogam um lance de peão que não ataca peça nenhuma, não ameaça mate nenhum e não mexe na contagem de material, e as brancas abandonam na hora.

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I  A Posição do Dia

O lance que não ataca nada

Um peão anda uma casa e o jogo das brancas acaba.

Copenhague, 9 de março de 1923, sexta rodada do torneio internacional. Friedrich Sämisch conduz as brancas contra Aron Nimzowitsch, numa Defesa Índia da Dama com peão em g3 e bispo em g2, a montagem mais sólida do repertório da época.

O aperto começa devagar. 17.Dd1 recolhe a dama que tinha saído pra b3. 18.Cb1 devolve o cavalo à casa em que ele nasceu, e ele não sai mais de lá até o fim da partida. 19.Tg1 tira a torre de f1 pra reforçar o bispo de g2.

Três lances, três peças andando pra trás. Nenhuma delas estava atacada naquele momento, e nenhuma recuou por gosto: cada volta foi resposta a uma ameaça que ainda nem tinha aparecido no tabuleiro.

20.e4 é a tentativa de furar o bloqueio, e ela cobra o preço mais alto da partida. 20...fxe4 21.Dxh5 Txf2, e a torre preta desce pra segunda fileira. As brancas ganharam um cavalo, as pretas ganharam um peão e a casa que vale mais que o peão.

22.Dg5 Taf8 põe as duas torres pretas na mesma coluna. 23.Rh1 devolve o rei branco pra casa de onde ele tinha saído no lance 15, e 23...T8f5 traz a segunda torre pra beira do fogo, em f5.

24.De3 Bd3 fecha a jaula. O bispo preto ocupa d3 e passa a controlar f1, a casa por onde a torre de f2 entraria. 25.Tce1 vira obrigação: a torre atravessa o tabuleiro de c1 até e1 só pra defender f1 uma segunda vez.

Vale olhar o serviço de cada peça branca antes do lance final. O bispo de g2 é o único guarda das casas claras na frente do rei. A torre de g1 defende o bispo. A torre de e1 acabou de chegar pra segurar f1 junto com ela. A dama de e3 vigia f3, a casa onde a torre preta se oferece.

O resto está pregado do mesmo jeito. O peão de d4 não anda, porque d5 é peão preto. Os peões de g3 e h3 são o telhado do rei e qualquer passo deles abre uma linha. O bispo de d2 fica espremido entre a dama e a torre.

E o cavalo de b1 está atacado pelo bispo de d3, com c2 vazio desde a troca do lance 9, sem um único defensor. A torre que cobria a casa saiu pra e1, e a dama não chega em c1 porque o próprio bispo de d2 tranca a diagonal. Ele é uma peça que já não é mais das brancas, só ainda não foi recolhida.

25...h6. O peão preto anda uma casa. Não ataca nada, não ameaça nada, não defende nada que já não estivesse defendido. É um lance de espera puro, e devolve a vez pras brancas.

Sobravam três lances de peão às brancas: a3, a4 e b3. Depois deles, qualquer peça que andasse custava material.

Sämisch abandonou. Um relato diz que ele pensou perto de uma hora antes de estender a mão, outro diz que ele estourou o tempo no relógio. Vinte e cinco das trinta e duas peças ainda estavam no tabuleiro, e ele tinha um cavalo a mais em troca de dois peões.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Gastar os lances de espera à toa

O erro não é o lance ruim. É chegar na posição que decide a partida sem um único lance inofensivo sobrando na mão.

O jogador conta material o tempo todo. Conta o relógio de vez em quando. E quase nunca conta a terceira coisa: quantos lances a posição dele ainda aceita sem estragar nada.

A reserva existe em toda posição e ela tem dois tipos bem diferentes de moeda. Peça vai e volta: torre sobe uma casa e desce, rei anda e retorna, bispo troca de diagonal e refaz o caminho. Peão não tem marcha à ré. Cada casa que ele deixa é definitiva.

Na sua própria partida o gasto acontece cedo e parece de graça. h3 no meio da abertura pra dar ar ao rei, a4 pra ganhar um espaço que ninguém disputava, g3 porque a casa parecia útil. Em partida rápida cada um custa um segundo e nenhum deles dói na hora.

A conta chega depois, sempre no mesmo momento: aquele em que a posição trava e você precisa de um lance que não mude nada. Os peões da frente do rei já foram, os da ala da dama já foram, e a única coisa que ainda anda é uma peça com emprego fixo.

Em Copenhague os dois peões que decidiram a partida eram justamente os do abrigo do rei. Eles saíram por motivo razoável, um na abertura e outro no lance 14. No lance 25 eram os dois únicos peões que ainda tinham casa livre à frente e não podiam usar nenhuma delas.

Peão que anda é porta que fecha atrás de você.

A segunda metade do erro é conceitual e ela pega gente forte também: acreditar que ter a vez é sempre bom. A vez de jogar é crédito enquanto existe lance bom na lista. No instante em que a lista acaba, a mesma vez vira uma conta a pagar, e o adversário não precisa fazer nada além de esperar.

O preço, na partida de Copenhague, foi tudo. As brancas não tinham peça pendurada por descuido, não tinham rei em xeque perpétuo, não tinham peão passado do adversário correndo pra promoção. Tinham material a mais e nenhum lance.

Existe um teste barato pra pegar o erro antes de ele acontecer, e ele cabe em cinco segundos. Antes de empurrar um peão, pergunte se você ainda vai poder fazer esse mesmo lance daqui a cinco lances. Peça responde que sim quase sempre. Peão responde que não sempre.

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III  O Padrão que Se Repete

Conte os lances que não custam nada

O nome do padrão é zugzwang, e a tradução literal ajuda mais que a técnica: obrigação de mover. Não é uma armadilha que se arma num lance, é uma condição que se acumula, e o sinal dela é sempre o mesmo, a lista de lances neutros chegando ao fim.

"Um lance brilhante, que anuncia o zugzwang. As brancas não têm mais um lance."

Aron Nimzowitsch, Chess Praxis, 1929

Quem batizou a partida foi Hans Kmoch, que a chamou de A Imortal do Zugzwang, e o apelido colou por um século. Nimzowitsch tinha construído a posição de propósito: as peças pretas não ficaram paradas por acaso, elas ocuparam exatamente os postos que tiravam casa das peças brancas.

Nem todo mundo aceita o batismo. Andrew Soltis argumenta que o zugzwang de verdade vence sem ameaça nenhuma, e que ali as pretas ainda tinham um golpe concreto na manga, T5f3, ganhando a dama. Raymond Keene e Wolfgang Heidenfeld levantaram objeção parecida.

A briga é sobre a etiqueta, não sobre o mecanismo. Com ameaça ou sem ameaça, o motivo de Sämisch estender a mão no lance 25 foi a falta de lance, e a falta de lance tinha endereço: cada peça branca com um emprego, cada peão branco sem casa livre.

1. Antes de empurrar qualquer peão, conte quantos lances neutros a sua posição ainda tem. Dois ou menos é sinal de alerta, e o peão que você ia empurrar provavelmente era um deles.

2. Pergunte de cada peça sua qual é o emprego dela. Peça com emprego não é peça disponível, é peça alugada, e uma posição inteira de peças alugadas não tem lance de espera nenhum.

3. Quando o adversário estiver travado, procure o lance de espera antes de procurar o lance de ataque. Ataque dá a ele um alvo e às vezes uma casa. Lance de espera só devolve a vez, e a vez é o que está machucando.

O padrão aparece nas mesmas paisagens toda vez, e vale reconhecer as três. Estrutura de peões trancada, com as duas cadeias se olhando e ninguém podendo romper, é o berço natural: sem captura possível, os lances neutros acabam mais rápido.

A segunda é a defesa passiva de peão fraco. Torre parada atrás de um peão que não anda deixa de ser peça e vira poste, e a posição perde a reserva inteira no dia em que o rei também precisa ficar.

A terceira é o rei rocado com dois peões já empurrados. Cada casa vaga na frente do rei é uma linha que o adversário vai usar, e o lado que empurrou primeiro é o lado que fica sem lance depois.

Quem tem lance de espera dita o ritmo da partida. Quem não tem joga o que sobrou.

"Quantos lances inofensivos a sua posição ainda tem agora?"

 
 
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Depois do lance de espera das pretas em h6, quais lances ainda sobravam às brancas sem que nenhuma peça saísse do lugar?

ATrês, com os peões de a2 e b2
BDois, com os peões de g3 e h3
CUm, o avanço do peão de d4
DNenhum, todos os peões estavam travados

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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