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O enigma de al-Suli que esperou 1.000 anos

Bagdá anota no século X um final de quatro peças, e só nos anos 1980 alguém mostra o caminho inteiro da vitória.

Diagrama: Diamante de al-Suli, rei branco em b3 e ferz em c3 contra rei preto em d5 e ferz em a1.

Diamante de al-Suli, brancas jogam Rb4

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U ma em 9. Era a chance de acertar no chute o primeiro lance da posição que al-Suli deixou anotada em Bagdá: as brancas têm 9 lances legais, e só um deles é o que o mestre registrou como começo da vitória.

A conta parece boa para um enigma. Com quatro peças no tabuleiro, dois reis e duas peças pequenas, qualquer jogador imagina que bastam algumas tentativas para achar a saída.

Não bastaram. A posição passou por copistas, colecionadores e historiadores durante mais de mil anos sem que ninguém publicasse a linha completa até o fim.

O jogo era o shatranj (o xadrez árabe medieval, avô do xadrez de hoje). Nele, a peça que virou a nossa dama se chamava ferz (conselheiro, em persa), e andava uma única casa na diagonal. Era a peça mais fraca do tabuleiro depois do peão.

A regra de vitória também era outra. Além do xeque-mate, ganhava quem deixasse o rei adversário sozinho, sem nenhuma peça, desde que o outro lado não pudesse responder capturando a última peça no lance seguinte.

Com essa regra, um final de rei e ferz contra rei e ferz vira uma caçada lenta. O lado mais forte precisa capturar o ferz adversário sem perder o próprio, e o ferz, preso às casas de uma cor só, foge devagar.

O autor da posição escreveu que ninguém antes dele tinha resolvido o problema e que ninguém resolveria sem aprender com ele. Deixou o primeiro lance e levou o resto consigo.

Os enxadristas deram à posição o nome de Diamante de al-Suli. Nenhuma das fontes conhecidas explica a origem do nome; a hipótese mais repetida liga o apelido ao valor do achado, mas nenhum manuscrito confirma.

O diagrama da seção I mostra a posição como ela chegou até nós, com as brancas para jogar e o lance que decide tudo marcado.

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I  A Posição do Dia

O rei que dá um passo para a frente

Abu Bakr Muhammad ibn Yahya al-Suli nasceu em uma família de origem turca, viveu em Bagdá no século X e foi o enxadrista mais forte da corte abássida. Ganhou fama ao derrotar o campeão anterior, al-Mawardi, diante do califa al-Muktafi, que reinou de 902 a 908.

Al-Suli também foi tutor do futuro califa al-Radi e escreveu um livro de xadrez com posições compostas, as mansubat (problemas de xadrez montados para estudo). O Diamante está entre elas.

No diagrama, as brancas têm rei em b3 e ferz em c3. As pretas têm rei em d5 e ferz em a1. O programa de diagramas desenha os dois ferzes como damas, mas cada um anda uma casa só, na diagonal.

O registro sobreviveu num manuscrito guardado hoje na Biblioteca Süleymaniye, em Istambul, na coleção Lala İsmail, número 560. O historiador inglês H. J. R. Murray traduziu o trecho em 1913.

"Não há ninguém na terra que a tenha resolvido, a não ser que eu tenha ensinado." (al-Suli, citado por H. J. R. Murray em A History of Chess, 1913)

O primeiro lance que al-Suli deixou é 1.Rb4: o rei branco sobe uma casa, de b3 para b4.

No Diamante de al-Suli, o primeiro lance não toca em nenhuma peça adversária: ele tira casas do rei preto.

O lance tem três funções, e cada uma se confere no tabuleiro:

1. O rei em b4 controla c4 e c5, as casas por onde o rei preto chegaria ao ferz branco de c3.

2. O ferz de c3 continua guardando b2, a única casa para onde o ferz preto de a1 pode andar.

3. O rei branco fica a duas colunas do canto, pronto para descer e cercar o ferz preto quando chegar a hora.

Os dois ferzes andam em casas escuras: a1 e c3 têm a mesma cor. Assim, eles podem se encontrar, e a captura de um pelo outro decide a partida.

O ferz preto está quase preso no canto. Ele só tem b2 para andar, e b2 é vigiada pelo ferz branco. O problema das brancas é o rei preto, que corre para defender o canto ou para atacar o ferz de c3.

Pela conta do pesquisador holandês John Tromp, publicada em 2015, a vitória leva 39 meios-lances (cada lance de um dos lados) com jogo perfeito dos dois lados. O primeiro deles é exatamente o de al-Suli.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

A troca que devolve o empate

O erro mais jogado no Diamante é trocar os ferzes cedo, porque dois reis sozinhos no tabuleiro dão empate.

O lance tentador é levar o ferz de c3 para b2, encostando no ferz preto. Parece ataque, mas o ferz preto de a1 captura em b2, e o rei branco recaptura.

A regra do rei sozinho explica o empate. As pretas deixam as brancas sem peça, as brancas devolvem no lance seguinte, e o shatranj registrava esse desfecho como partida empatada.

O segundo erro é a gula. O rei branco pode ir atrás do ferz de a1 sem cuidar do próprio ferz. Enquanto ele desce para o canto, o rei preto chega a c4 e ataca c3, e as duas capturas se anulam do mesmo jeito.

O terceiro erro é jogar o ferz branco para d4, perto do rei preto. Ali ele fica sem defesa, o rei de d5 o captura, e as brancas perdem a única peça que tinham além do rei.

ANTES DE MEXER O FERZ BRANCO

1. Conte quantas casas o rei preto precisa andar para atacar o seu ferz.

2. Confira se o rei branco cobre essas casas no lance seguinte.

3. Só então avance o ferz, e nunca para uma casa vizinha ao rei preto.

O erro não foi só de amadores. Em 1984, a primeira edição do Oxford Companion to Chess, dos ingleses David Hooper e Kenneth Whyld, publicou uma solução do Diamante que deixava passar a melhor defesa das pretas no terceiro lance.

A falha ficou no livro até 1986. Naquele ano, o grande mestre russo Yuri Averbakh, especialista em finais e ex-presidente da Federação de Xadrez da União Soviética, publicou a solução correta no 10º boletim da Olimpíada de Xadrez de Dubai.

Averbakh reconstruiu a linha a partir de três posições copiadas nos manuscritos. O lance inicial que ele encontrou foi o mesmo 1.Rb4 que al-Suli anotou, e o russo registrou a surpresa com a precisão do mestre de Bagdá.

O erro custa caro porque a posição tem poucas peças. Com só um ferz de cada lado, uma troca fora de hora apaga toda a vantagem de tempo que o rei branco tinha juntado.

 

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III  O Padrão que Se Repete

A máquina que confere o mestre

O padrão que o Diamante revela aparece em outras posições antigas: o final curto, de poucas peças, esconde linhas longas, e só a verificação lance a lance mostra quem tinha razão.

Depois de Averbakh, a conferência passou para o computador. Segundo a segunda edição do Oxford Companion to Chess, de 1992, o matemático inglês John Beasley rodou a primeira solução gerada por máquina e achou uma defesa ainda mais resistente das pretas no sexto lance, com o rei indo para f8.

A defesa de Beasley mudava o caminho, mas a vitória continuava de pé. O primeiro lance também não mudou: 1.Rb4 seguia como a porta de entrada da linha.

Uma posição de quatro peças pode levar mil anos para ser resolvida, e mesmo assim o primeiro lance certo pode ter sido conhecido desde o começo.

Hoje, toda posição de shatranj com até seis peças pode ser consultada em tabelas de finais (bancos de dados que guardam o resultado exato de cada posição). O site chinês ChessDB publica essas tabelas para o xadrez árabe.

John Tromp também estudou variações do Diamante. Em 2015, ele descreveu o Diamante Bruto de al-Suli, uma posição parecida que pede 53 meios-lances e termina caindo na posição original.

Em 2026, a associação holandesa de estudos de finais ARVES listou novas posições de rei e ferz contra rei e ferz compostas pelo turco Tamer Karatekin. A mais longa, o Diamante Difícil, pede 63 meios-lances.

O que não se sabe é como al-Suli chegou ao primeiro lance. Os manuscritos guardam a posição e o lance inicial, mas nenhum registro conhecido traz a análise que ele fez. Se ele tinha a linha inteira ou só a intuição certa, as fontes não dizem.

Al-Suli terminou a vida escondido em Basra, no sul do atual Iraque, depois de perder o favor da corte, em 946. O enigma ficou em Bagdá, nos livros que outros copiaram.

Três sinais mostram que um final de rei e ferz contra rei e ferz pede calma antes da captura:

1. Os dois ferzes estão em casas da mesma cor.

2. O rei adversário chega ao seu ferz em menos lances do que o seu rei chega ao dele.

3. A captura imediata deixa os dois reis sozinhos no tabuleiro.

Diante de um final com poucas peças, você calcula a primeira troca ou procura antes o lance de rei que tira casas do adversário?

Confira no diagrama, com um tabuleiro na mão:
quantos lances legais as brancas têm na posição inicial;
qual a cor das casas a1 e c3;
quais casas o rei branco controla depois de 1.Rb4.

 
 
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