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O clube de Karlsbad que só aceitava quem perdia para Vera Menchik
Em 1929, Albert Becker inventou o clube e virou o 1º sócio. Euwe entrou 2 vezes antes de ser campeão do mundo.
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Posição de Lucena, as brancas jogam e vencem
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U ma em 22. Era a proporção de mulheres no salão do torneio de Karlsbad, na então Tchecoslováquia, em agosto de 1929. Vera Menchik ocupava sozinha essa fração, e cada um dos outros 21 mestres sabia que ia enfrentá-la uma vez, em alguma rodada da tabela. Para os homens da mesa, a conta parecia um ponto garantido. Menchik era a campeã mundial feminina desde 1927, título conquistado em Londres, mas nenhum deles tratava o título feminino como prova de força contra mestres. O torneio tinha nomes como Aron Nimzowitsch, que acabou campeão, José Raúl Capablanca e Rudolf Spielmann. O mestre austríaco Albert Becker levou a piada mais longe. Antes de sentar para jogar com ela, propôs aos colegas um clube para quem perdesse para Vera Menchik, e sugeriu que o sócio pagaria o vexame com a própria inscrição. Becker perdeu a partida para ela. Virou o primeiro sócio do clube que ele mesmo tinha inventado, e o nome pegou: nas décadas seguintes, os jornais de xadrez passaram a chamar de Clube Vera Menchik a lista de mestres derrotados por ela. A lista cresceu com gente de peso. Entraram nela Samuel Reshevsky, Mir Sultan Khan, George Thomas e, em 2 ocasiões, o holandês Max Euwe, que em 1935 venceu Alexander Alekhine e se tornou campeão mundial absoluto. Em Karlsbad, Menchik terminou na última colocação, e o resultado ajudou a manter a piada viva por algum tempo. O clube durou mais que a piada, porque cada sócio novo tinha perdido uma partida inteira, lance a lance, para quem ele imaginava vencer sem esforço. A primeira vitória sobre Euwe veio em Hastings, no torneio de fim de ano de 1930 para 1931. A seção I parte dela para chegar ao tipo de final em que Menchik costumava ganhar pontos que os adversários davam como empatados. Continue lendo ↓
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I A Posição do Dia
A ponte que Menchik sabia montar
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Vera Menchik nasceu em Moscou em 1906, filha de pai tcheco e mãe inglesa, e se mudou para a Inglaterra em 1921. Aprendeu com o mestre húngaro Géza Maróczy, e o estilo que saiu desse treino era sóbrio: pouca aventura na abertura, muita precisão quando as peças saíam do tabuleiro. A vitória sobre Euwe em Hastings entrou na lista do clube, mas os lances completos daquela partida não aparecem com fonte segura nas bases públicas que esta edição consultou. Por essa razão, o diagrama traz uma posição de manual, a posição de Lucena, que resume o tipo de final em que o estilo dela rendia pontos. Na posição, as brancas têm rei em b8, peão em b7 e torre em c1. As pretas têm rei em d8 e torre em a2. O peão está a uma casa de virar dama, mas o próprio rei branco ocupa a casa de promoção e não consegue sair sem levar xeques laterais. |
O plano vencedor tem nome de obra: construir a ponte (usar a torre como escudo contra os xeques da torre adversária), e começa por empurrar o rei preto para longe.
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A sequência que qualquer leitor confere no tabuleiro: 1. 1.Rd1+ (torre para d1 com xeque) afasta o rei preto: 1...Ke7. 2. 2.Rd4 leva a torre à quarta fileira, onde ela vai servir de parede. 3. Depois de 2...Ra1, o rei branco sai com 3.Kc7 e sobe pelos xeques: 3...Rc1+ 4.Kb6 Rb1+ 5.Kc6 Rc1+ 6.Kb5 Rb1+. 4. 7.Rb4 fecha a coluna. Os xeques acabam, e o peão coroa. O nome vem do espanhol Luis Ramírez de Lucena, que publicou um tratado de xadrez em Salamanca em 1497, embora a posição não apareça no livro que sobreviveu. A técnica da ponte foi descrita mais tarde, e o nome ficou por tradição. Para uma jogadora que passava a carreira em torneios masculinos, finais de torre eram território favorável. Nelas, a preparação de abertura pesa pouco, e vence quem conhece o método de cor. O detalhe que decide a posição é a quarta fileira. Se a torre branca parasse na terceira, o rei chegaria à coluna c e a ponte não fecharia a tempo; na quinta, faltaria espaço para o rei se esconder. A quarta é a casa exata onde a torre corta o xeque sem ser atacada. Também importa o lado para onde o rei preto foi empurrado. Com o rei em e7, longe da coluna b, ele não consegue voltar a tempo de atacar o peão, e a defesa fica só com a torre, que não segura o avanço sozinha. Finais de torre são os mais frequentes do xadrez de torneio, e quem domina a posição de Lucena transforma em vitória muitas posições que o adversário ainda chama de igualdade.
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II O Erro Mais Jogado
O ponto dado como certo
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O erro mais jogado contra uma adversária subestimada é trocar peças cedo, contando que o final vem de graça, e descobrir no final que ela conhece a técnica melhor.
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A lógica do erro é simples. Quem espera vencer sem esforço evita complicações, troca damas e torres, e chega a um final de torre com um peão a mais ou com material igual. O plano parece seguro porque reduz o risco de um golpe tático. Contra Menchik, o plano entregava a partida ao terreno dela. Maróczy tinha formado a aluna nos finais clássicos, e ela sabia converter vantagens pequenas e segurar posições inferiores com a mesma calma. Em clube, o erro se repete com outro rosto. O jogador de rating (a pontuação numérica que mede a força de cada enxadrista) mais alto troca tudo contra um adversário mais fraco, chega a um final de torre e peão, e não sabe se precisa da ponte de Lucena ou da defesa de Philidor (o método de segurar o empate com a torre na terceira fileira). O desfecho costuma ser um empate que o favorito considera derrota, ou uma derrota de verdade, quando ele tenta forçar a vitória numa posição que não comportava. ANTES DE TROCAR AS DAMAS 1. Pergunte que tipo de final sobra depois da troca, e se você conhece o método dele de cor. 2. Compare a experiência do adversário em finais com a sua, e não o rating dos dois. 3. Se a resposta for incerta, mantenha as peças e jogue o meio-jogo, onde o cálculo ainda decide. A regra vale nos dois sentidos. Quem está em desvantagem de rating também pode escolher o final de propósito, se conhece a técnica e sabe que o favorito vai chegar lá com pressa e pouca atenção. Foi esse o caminho que Menchik repetiu em vários torneios: aceitar posições simples, sem pressa de complicar, e esperar o momento em que o adversário, convencido do ponto certo, trocava a última peça ativa sem calcular o final que sobrava. Becker não deixou registro de que tipo de final perdeu em Karlsbad, e esta edição não encontrou os lances daquela partida em base confiável. O que ficou registrado foi o placar e o clube.
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