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O cavalo que Tal entregou em f4 na 6ª partida

Moscou, 1960: o desafiante de 23 anos troca uma peça inteira por linhas abertas contra o rei de Botvinnik.

Diagrama: cavalo preto em f4 diante do roque branco, lance 21.

Botvinnik x Tal, 6ª partida, Moscou, 1960

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D oze em 24. Era a conta que bastava a Mikhail Botvinnik na primavera de 1960: o regulamento dava ao campeão a coroa em caso de empate no placar, e o desafiante precisava de 12,5 pontos em 24 partidas para tirá-la.

Para Mikhail Tal, aos 23 anos, a margem era pequena. Ele enfrentava um campeão de 48 anos, conhecido pela preparação metódica e pela calma nas posições fechadas, num match disputado em Moscou, no Teatro Pushkin, diante de uma plateia que lotava a sala.

O jovem de Riga tinha outro estilo. Ele procurava posições confusas, em que o cálculo exato ficava difícil para os dois lados, e aceitava perder material para conseguir ataque. Botvinnik preferia o contrário: posição clara, plano longo, nenhum risco desnecessário.

Na sexta partida, com as peças pretas, Tal escolheu a Defesa Índia do Rei (abertura em que as pretas deixam o branco ocupar o centro com peões e atacam esse centro depois, com o bispo posicionado em g7). Botvinnik conhecia a abertura em detalhe.

No lance 21, Tal colocou um cavalo em f4, numa casa vigiada por um peão branco. Bastava ao branco capturar com o peão de g3 para ganhar uma peça inteira, o equivalente a 3 peões na contagem tradicional de material.

Botvinnik pensou longamente antes de responder. Capturar significava ficar com material a mais e abrir a coluna g na frente do próprio rei. Recusar significava deixar um cavalo preto plantado perto do roque branco.

Ele capturou. A partida terminou com vitória de Tal, e o match também: 12,5 a 8,5 em 21 partidas, com 6 vitórias de Tal, 2 de Botvinnik e 13 empates. Tal virou o oitavo campeão mundial da história e, naquela data, o mais jovem.

A seção I mostra a posição do sacrifício e mede o que cada lado recebe na troca. O cavalo entregue em f4 parece um presente, mas o preço dele aparece nas linhas que se abrem logo depois.

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I  A Posição do Dia

O que o peão de g3 abriu ao capturar

A sexta partida do match de 1960 foi jogada entre Mikhail Botvinnik, com as brancas, e Mikhail Tal, com as pretas. O sacrifício que decidiu a partida aconteceu no lance 21, numa Índia do Rei em que as duas cadeias de peões se travavam no centro.

O lance foi 21...Cf4 (C é o cavalo, e os três pontos indicam lance das pretas). O cavalo pulou para a casa vizinha ao roque branco, onde o peão de g3 podia capturá-lo de imediato.

Botvinnik respondeu 22.gxf4 (o x indica captura: o peão de g tomou em f4). As pretas devolveram com 22...exf4, recuperando um peão. O saldo de material ficou em uma peça a mais para as brancas contra um peão a mais para as pretas.

Na contagem tradicional, o branco ganhou 3 pontos e entregou 1. Ficou 2 pontos à frente. Quem joga contando só material vê uma partida vencida para o branco.

O que as pretas compraram com o cavalo foi tempo e espaço: uma diagonal livre para o bispo de g7, uma coluna aberta na frente do rei branco e um peão em f4 que empurra as peças brancas para trás.

Na posição depois de 22...exf4, três ganhos aparecem para as pretas, e cada um se confere no tabuleiro:

1. A diagonal longa. Com o peão de e5 saindo para f4, o bispo de g7 enxerga a diagonal livre até o cavalo branco de c3, passando pelas casas centrais e5 e d4.

2. A casa e5. O peão que saiu de e5 deixou a casa livre para as peças pretas usarem como apoio, e nenhum peão branco consegue mais expulsá-las dali.

3. O rei branco descoberto. Com o peão de g3 fora do tabuleiro (capturou em f4 e foi recapturado), o roque branco perdeu o escudo da coluna g, e as torres e a dama pretas ganham caminho para chegar perto do rei.

Para o branco, a troca rendeu a peça a mais e a obrigação de defender. Cada lance de Botvinnik passou a ter de cobrir uma ameaça, e quem só cobre ameaça não tem tempo de usar o material extra.

A análise posterior, feita por mestres e depois confirmada por programas de computador, mostrou que o branco tinha defesa e que o sacrifício, com jogo exato, não ganhava à força. Botvinnik não achou essa defesa no tabuleiro, com o relógio correndo, e acabou perdendo.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

A peça a mais que paralisa o defensor

O erro mais jogado diante de um sacrifício especulativo é aceitar a peça e depois jogar como se a vantagem de material bastasse sozinha.

O sacrifício especulativo (o que não força o ganho por cálculo, mas cria problemas difíceis para o adversário) aposta justamente nesse erro. Quem recebe a peça relaxa, e quem entregou ganha a iniciativa, ou seja, a liberdade prática de fazer ameaças a cada lance.

O primeiro desvio é o recuo automático. O jogador com a peça a mais leva todas as peças para perto do rei e espera. Enquanto espera, o atacante coloca mais uma peça na coluna aberta, e a defesa fica sem lances úteis.

O segundo desvio é o oposto: devolver o material cedo demais, em pânico, sem calcular. Quem devolve a peça para trocar damas às vezes acerta, mas muitas vezes devolve na hora errada e fica com a posição pior e material igual.

O terceiro desvio aparece no relógio. O defensor gasta tempo demais nos primeiros lances depois do sacrifício e chega aos lances decisivos sem minutos para calcular. Na sexta partida de 1960, a dificuldade de Botvinnik veio desse acúmulo de lances difíceis em sequência.

ANTES DE ACEITAR UMA PEÇA OFERECIDA

1. Conte quantas linhas se abrem perto do seu rei se você capturar: colunas, diagonais e casas sem peão protetor.

2. Conte quantas peças do adversário chegam a essas linhas em 2 lances.

3. Se o número de peças atacantes for maior que o de defensoras, procure um lance que devolva parte do material e feche uma das linhas.

A conta não diz se o sacrifício é correto. Ela diz quanto trabalho a defesa vai exigir, e esse trabalho tem custo no relógio e na atenção, que nenhuma tabela de material mede.

Na partida de Moscou, Botvinnik tinha a peça a mais e a obrigação de achar uma série de lances únicos. Tal tinha um peão a menos de saldo e uma lista longa de ameaças para escolher. A diferença de liberdade pesou mais que a diferença de material.

O defensor que aceita um sacrifício precisa decidir cedo o plano de devolução. Guardar a peça a qualquer preço costuma sair mais caro que devolvê-la no momento escolhido por ele, e não pelo atacante.

 

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III  O Padrão que Se Repete

O cavalo em f4 que volta à Índia do Rei

O cavalo entregue em f4 virou marca da Índia do Rei. Na estrutura em que os peões centrais se travam, as pretas costumam avançar os peões da ala do rei e trazer um cavalo para f4, casa que pressiona g2, h3 e e2 de uma vez.

Quando o branco tem um peão em g3 vigiando f4, o cavalo chega lá como oferta. Se o branco captura, a coluna g se abre e o peão preto que retoma em f4 vira ponta de lança contra o roque. Se o branco não captura, o cavalo fica plantado e atrapalha a defesa.

O desenho se repete porque a estrutura se repete. Nas partidas de Índia do Rei com centro fechado, as brancas costumam atacar na ala da dama e as pretas na ala do rei, e quem chega primeiro ao rei adversário tende a vencer.

Tal transformou esse desenho em estilo. Nas partidas seguintes da carreira dele, o sacrifício de peça para abrir linhas perto do rei adversário apareceu em aberturas diferentes, sempre com o mesmo cálculo: material contra tempo.

O cavalo em f4 vale pelo que ele abre ao ser capturado, e o atacante só deve oferecê-lo quando conta mais peças prontas para usar a coluna aberta do que o defensor tem para fechá-la.

O título durou pouco. Em 1961, Botvinnik jogou a revanche prevista no regulamento, estudou o estilo do desafiante e venceu o segundo match por 13 a 8. Tal ficou com a coroa por cerca de um ano, e problemas de saúde nos rins acompanharam a preparação dele para a revanche.

A sexta partida de 1960 ficou como a mais citada do primeiro match. Ela mostra que um sacrifício pode decidir uma partida mesmo sem ser correto pela análise fria, desde que a defesa exigida seja difícil demais para o tempo disponível.

Para o jogador de clube, a lição prática é dupla. Quem ataca precisa contar as peças prontas antes de entregar o cavalo. Quem defende precisa contar as linhas abertas antes de aceitá-lo.

Diante de um cavalo oferecido perto do seu rei, você conta primeiro o material que ganha ou as linhas que se abrem?

Confira no tabuleiro, montando a posição do lance 21:

• em que casa o cavalo de Tal foi entregue;

• qual peão branco capturou e qual coluna ficou aberta;

• qual bispo preto ganhou a diagonal longa depois de 22...exf4.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, qual foi o placar final do match entre Tal e Botvinnik em 1960, e em quantas partidas?

A11,5 a 9,5 em 21 partidas
B12 a 9 em 20 partidas
C12,5 a 8,5 em 21 partidas
D13 a 8 em 22 partidas

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