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ED 038
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O capitão que entregava um peão no quarto lance

Evans oferece o peão de b4 na Italiana para empurrar o bispo preto e montar o centro com c3 e d4 antes de o adversário se desenvolver.

Peão branco em b4 oferecido ao bispo preto de c5 na Italiana.

Evans x McDonnell, Londres 1827, após 4.b4

 

D uas em trinta e cinco. O preto tem trinta e cinco lances legais na posição de hoje, e exatamente dois deles pegam o peão que o branco acabou de pendurar em b4. Quem senta do lado preto passa a partida inteira decidindo se aquelas duas casas valiam o convite.

Um gambito é a entrega voluntária de material logo na abertura em troca de outra moeda, quase sempre tempo, que no jargão do tabuleiro significa um lance de vantagem no desenvolvimento das peças. A conta parece simples, um peão por um lance, e ela engana pela ordem dos fatores: o peão sai do tabuleiro na hora, o lance de vantagem só vira alguma coisa se o dono souber gastar.

O que separa um gambito bom de uma doação é o que o peão obriga o adversário a fazer. Peão jogado num quadrado onde ninguém precisa capturar não compra nada. Peão jogado onde a peça mais adiantada do adversário está parada obriga aquela peça a se mexer duas vezes, e cada movimento repetido da mesma peça na abertura é um lance que não desenvolveu nenhuma outra.

Existe um preço honesto na jogada. Quem entrega o peão fica com um peão a menos, e se o ataque não chegar até o meio de jogo, o final de partida chega com o adversário levando uma unidade de vantagem que não some sozinha. Um lado joga contra o relógio da própria iniciativa, o outro joga para trocar peças e sobreviver até a aritmética falar mais alto.

A oferta desta edição nasceu na cabeça de um capitão de navio galês que jogava xadrez entre travessias e que nunca foi enxadrista profissional. Ela apareceu em Londres, na década de 1820, dentro da abertura mais popular do período, e desmontava a defesa do adversário antes do décimo lance com uma sequência de três movimentos que qualquer iniciante consegue decorar.

O diagrama de hoje congela a posição no instante em que o peão é oferecido, com todas as peças ainda no tabuleiro.

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I  A Posição do Dia

O peão de b4 posto na frente do bispo

No tabuleiro há trinta peças. Rei branco em e1, dama em d1, torres em a1 e h1, bispos em c1 e c4, cavalo em f3, peões em a2, b4, c2, d2, e4, f2, g2 e h2. Rei preto em e8, dama em d8, torres em a8 e h8, bispos em c8 e c5, cavalo em c6, peões em a7, b7, c7, d7, e5, f7, g7 e h7. As pretas jogam.

A posição vem do Gambito Evans, batizado com o nome de William Davies Evans, capitão de navio postal galês nascido em 1790, que jogou a ideia contra Alexander McDonnell em Londres, em 1827, e venceu. Evans não era enxadrista de carreira: comandava a linha de correspondência entre o País de Gales e a Irlanda e depois inventou um sistema de luzes de sinalização de três cores para navios.

Os quatro lances até aqui são os mais comuns do século: 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5. É a abertura Italiana, chamada de Giuoco Piano, expressão italiana que significa jogo tranquilo, porque as duas partes desenvolvem devagar e nenhuma ataca de imediato. O bispo branco de c4 e o bispo preto de c5 se olham em diagonais espelhadas, e a posição é simétrica.

O quarto lance branco quebra a simetria de um jeito que ninguém esperava em 1827. 4.b4 oferece o peão da coluna b diretamente ao bispo preto de c5, sem defesa nenhuma. Nada obriga o preto a aceitar, e é aí que mora a graça: dos trinta e cinco lances legais, só Bxb4 e Cxb4 capturam.

O peão de b4 não pede para ser comido, ele pede que o bispo preto de c5 escolha, e qualquer escolha custa um lance àquela peça.

Se o preto captura com o bispo, vem 5.c3, atacando de novo o mesmo bispo, agora em b4. O bispo recua para a5, a6 ou c5, e o branco jogou dois lances de peão que empurraram uma peça inimiga três vezes. Se o preto recusa e joga Bb6, o branco segue com a5 e ganha os mesmos tempos sem gastar peão nenhum.

O ponto da preparação aparece no lance seguinte. Com o peão em c3, a casa d4 fica apoiada, e 6.d4 monta o centro de peões em e4 e d4 no momento em que o bispo preto está fora de posição e o rei preto ainda não roqueou. O bispo branco de c4 mira f7, a torre de a1 respira pela coluna b aberta, e a dama branca alcança b3 numa jogada.

Vale montar as trinta peças e jogar 4.b4 Bxb4 5.c3 Ba5 6.d4 no tabuleiro para ver a coisa acontecer. Em três lances brancos, o centro está tomado, uma coluna abriu e o bispo preto que começou na melhor diagonal do jogo terminou encostado na borda, longe do próprio rei.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Segurar o peão a mais e devolver o centro

O erro mais jogado no lado preto é tratar o peão de b4 como lucro definitivo e defendê-lo com lances de peão do próprio flanco, em vez de devolver a unidade no momento certo e terminar o desenvolvimento: quem guarda o troféu paga com o centro e com o rei parado em e8.

A origem do erro é uma conta que funciona no final e falha na abertura. Um peão a mais decide partidas equilibradas, e o jogador aprende cedo a não largar material de graça. O reflexo vira dogma, e o dogma manda segurar b4 com a7 a5 ou c7 c6 quando as peças pretas ainda estão em casa e o rei ainda está no centro.

A COMO ENFRENTAR UM PEÃO OFERECIDO NA ABERTURA

1. Pergunte o que o peão obriga você a fazer. Se a captura tira uma peça sua de uma casa boa ou joga essa peça para uma casa ruim, o peão está caro mesmo saindo de graça, e recusar o convite costuma ser mais barato que aceitar.

2. Conte quantos lances você gasta guardando o material contra quantas peças você ainda tem sem desenvolver. Dois lances de peão de defesa com três peças em casa é troca ruim em qualquer posição da abertura.

3. Trate o peão extra como moeda de devolução, não como patrimônio. Devolver a unidade num momento em que ela trava uma peça branca ou permite terminar o roque converte material em segurança, que é a mercadoria que faltava.

A segunda versão do erro aparece na hora de recuar o bispo. Depois de 5.c3, o recuo para a5 mantém o bispo na diagonal ativa e o deixa mirando c3, e o recuo para c5 devolve o bispo ao centro e convida 6.d4 com ganho de tempo imediato. O jogador escolhe pela sensação de segurança e entrega o lance que o branco queria.

A terceira versão mora do lado branco. Quem joga o Gambito Evans e não segue com c3 e d4 fica com um peão a menos e nada em troca. O gambito não é o lance 4.b4 sozinho, é a sequência inteira até o centro montado, e abandonar a sequência no meio deixa o pior dos dois mundos: material perdido e desenvolvimento normal.

O antídoto, dos dois lados, cabe numa pergunta feita antes de capturar ou de recuar: quantos lances essa decisão me custa e quantos ela custa ao adversário. Quem faz a conta em tempos, e não em peças, para de defender peão de flanco com o rei descoberto no meio do tabuleiro.

 

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III  O Padrão que Se Repete

Um peão de flanco que compra dois tempos

O mecanismo pertence à família dos gambitos de desvio, que trocam material por posição e não por ataque imediato. O peão não abre linha nenhuma contra o rei adversário no momento em que sai. Ele empurra uma peça específica para uma casa pior e usa os lances desse empurrão para construir centro, e o ataque vem depois, quando as peças já estão melhores.

"O jogador com a vantagem é obrigado a atacar, sob pena de perdê-la."

Wilhelm Steinitz, The Modern Chess Instructor, 1889.

Steinitz escreveu a frase pensando exatamente em posições como esta. Quem entregou um peão comprou uma vantagem que vence, ou seja, ela expira: cada troca de peças aproxima o final, e no final o peão a mais volta a mandar. Adolf Anderssen usou a mesma abertura contra Jean Dufresne em Berlim, em 1852, na partida que ficou conhecida como Sempre-viva, e o ataque dele chegou antes das trocas.

O padrão se reconhece por três sinais na posição.

1. Existe uma peça adversária adiantada e sem apoio, parada numa casa que um peão seu alcança em um lance. Bispo em c5, cavalo em b4, dama saída cedo: qualquer peça que precise se mexer de novo serve.

2. O peão que você oferece sai de um flanco onde ele não fazia falta imediata e abre uma coluna para uma torre sua que estava sem trabalho. Peão de b ou de a, em geral, e a torre de a1 ou de h1 na outra ponta.

3. O lance de peão seguinte, o que empurra a peça de novo, prepara um avanço central. Sem o avanço central na sequência, o gambito vira só um peão perdido com dois lances de barulho no flanco.

A abertura registra a mesma engenharia em outras famílias. No Gambito do Rei, o branco entrega f4 para desviar o peão de e5 e ocupar o centro com d4; no Gambito da Dama, o branco oferece c4 sabendo que o peão volta ou que a captura em c4 custa tempo ao preto. A moeda é sempre a mesma, e o que muda é o alvo do empurrão.

O Gambito Evans não ficou preso ao século 19. Garry Kasparov o jogou contra Viswanathan Anand em Riga, em 1995, e venceu, o que devolveu a abertura aos torneios de elite depois de décadas de reputação de peça de museu. A ideia sobrevive porque a troca que ela propõe, material por iniciativa, continua sendo a mesma troca que decide partidas rápidas até hoje.

Existe uma extensão do padrão para quem joga com pouco tempo de relógio. Contra um adversário que precisa calcular a defesa a cada lance, um peão de flanco entregue no quarto movimento custa dele mais segundos do que custa peças, e a vantagem de relógio funciona como uma segunda moeda ao lado do tempo de desenvolvimento.

E se o peão que parece esquecido no flanco estiver comprando exatamente os dois lances que faltam para o centro?

Confira na sua próxima partida com a Italiana no tabuleiro:
quantos lances o seu bispo de c5 gastou depois de 4.b4;
se o peão capturado ainda está em pé no lance quinze;
em qual lance o seu rei conseguiu rocar.

 
 

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Quantos dos trinta e cinco lances legais do preto capturam o peão oferecido em b4?

ANenhum, a captura é ilegal na posição
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DTodos os lances de peça maior

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