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O bispo que Greco entregou em h7
Roma, 1620, o bispo branco cai na casa h7, o rei preto aceita a peça e o cavalo chega em g5 antes de existir uma casa de fuga.
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Greco x NN, Roma 1620, antes de 7.Bxh7+
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Existe um sacrifício que aparece antes de qualquer plano no repertório de quem começa a atacar o roque. O bispo branco de d3 mira a diagonal b1 h7, o rei preto está confortável em g8 atrás dos três peões, e o bispo simplesmente cai em cima do peão de h7 dando xeque.
O nome que ficou colado nele vem da história de Troia, e a metáfora explica a mecânica inteira. Uma peça é oferecida de presente, o adversário abre a porta para recebê-la, e o que entra pela porta aberta não é a peça.
O problema é que a sequência virou receita de decorar. O jogador aprende o gesto, vê o bispo cair em h7 em três vídeos seguidos e passa a repetir o lance toda vez que enxerga o bispo apontado para aquela casa, sem conferir o resto do tabuleiro.
Sacrifício não é lance, é contrato. Quem entrega uma peça está comprando tempo com material, e tempo comprado só serve se existirem peças prontas para gastar o tempo comprado no lance seguinte, sem escala e sem lance de preparação no meio.
No caso do bispo em h7, o contrato tem três cláusulas, e nenhuma delas é opcional. Um cavalo pronto para pular em g5 no lance imediatamente seguinte, uma dama com caminho livre até h5, e nenhuma peça preta capaz de cobrir a casa f6 ou a casa h5 a tempo.
As três cláusulas juntas produzem xeque-mate. Duas produzem um ataque que devolve material com juros. Uma só produz uma peça a menos e um final perdido, jogado por mais quarenta lances com cara de esperança.
A parte curiosa é que a régua completa já estava escrita quatro séculos atrás, num caderno de análises que circulou pela Europa antes de existir torneio, relógio ou notação impressa como conhecemos hoje.
A posição de hoje é uma dessas linhas, com o sacrifício aparecendo no sétimo lance e a partida acabando no décimo segundo, com o rei preto morrendo na própria casa de origem do roque.
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I A Posição do Dia
Roma, 1620, o bispo cai sem aviso
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Roma, por volta de 1620. De um lado, Gioachino Greco, o calabrês que viajou de Nápoles a Paris, Madri e Londres vivendo de partidas por dinheiro. Do outro, um adversário anônimo, registrado nos manuscritos apenas como NN.
Os lances de abertura não têm nada de especial: 1.e4 e6 2.d4 Cf6 3.Bd3 Cc6 4.Cf3 Be7. As pretas jogam a Defesa Francesa e desenvolvem as peças na ordem que qualquer manual moderno aprovaria.
5.h4. O lance que ninguém espera. O peão da torre avança dois passos antes do roque branco, e a torre de h1 passa a olhar por cima dele para o campo preto.
5...O-O. As pretas rocam, como manda a boa educação enxadrística, e colocam o rei exatamente na casa que o peão de h4 estava esperando.
6.e5 Cd5. O peão branco avança e expulsa o cavalo preto de f6. O cavalo vai para d5, uma casa boa no papel, e a casa f6 fica vazia.
A saída daquele cavalo é o lance mais importante da partida, e nenhum dos dois lados capturou nada. Enquanto o cavalo estava em f6, ele cobria h5 e cobria a própria casa f6. Em d5, ele não cobre nem uma nem outra.
7.Bxh7+. O bispo branco captura o peão de h7 e dá xeque. O material passa a favorecer as pretas, que ficam com uma peça menor de vantagem no instante em que aceitarem.
7...Rxh7. O rei captura, porque recusar também custa caro e porque um bispo de graça é difícil de deixar no tabuleiro.
8.Cg5+. O cavalo pula. A casa g5 está disponível, ela ataca o rei de h7 diretamente, e o cavalo chegou lá no lance imediatamente seguinte ao sacrifício, sem nenhum lance de preparação no meio.
8...Bxg5 9.hxg5+. As pretas capturam o cavalo com o bispo, e o peão de h4 recaptura em g5, abrindo a coluna h inteira para a torre de h1. O xeque continua, o rei continua sem tempo.
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A torre de h1 nunca se moveu, o peão de h4 avançou no quinto lance e o bispo branco já estava apontado para h7 desde o terceiro. O sacrifício foi o último item a chegar, não o primeiro.
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9...Rg8 10.Dh5. O rei volta para casa e a dama branca chega em h5. A ameaça é Dh8 com mate, porque a torre de h1 defende a casa h8 pela coluna aberta.
10...f5 11.g6. As pretas tentam abrir uma casa para o rei com o peão de f, e o peão branco de g5 avança para g6, fechando a fuga por f7 e mantendo o rei preso.
11...Te8 12.Dh8#. A dama entra em h8, encostada no rei. Capturar não é possível: a torre de h1 cobre a casa. Fugir também não: g7 tem peão preto, f7 está coberto pelo peão de g6, f8 tem torre e o rei não tem para onde ir.
Doze lances, um bispo entregue, um cavalo entregue, e o rei preto morto na casa em que tinha rocado para ficar seguro. As peças brancas que decidiram a partida foram o peão de h4, a torre que nunca saiu do canto e a dama que chegou por último.
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II O Erro Mais Jogado
Repetir o gesto sem conferir o contrato
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O erro não é sacrificar o bispo em h7. É sacrificar porque o bispo está apontado para h7, quando a diagonal aberta é a única das exigências que a posição realmente cumpre.
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A cena se repete em partidas de clube toda semana, com o mesmo roteiro. O jogador de brancas vê o bispo em d3, vê o rei preto em g8, reconhece o desenho da posição e joga o sacrifício em três segundos, com a certeza de quem já viu o filme.
O que ele não fez foi a conta do lance seguinte. Depois de 7.Bxh7+ Rxh7, as brancas precisam de um lance que dê xeque imediatamente, e o único candidato é o cavalo em g5.
Se o cavalo ainda está em b1, se ele está em c3 sem rota para g5, ou se a casa g5 está coberta por um bispo preto de d8 ou por um peão de h6, o xeque não existe. O rei preto simplesmente volta para g8 no lance seguinte com uma peça a mais.
AS TRÊS EXIGÊNCIAS, EM ORDEM DE CHECAGEM
1. Cavalo pronto para g5. Precisa chegar no lance seguinte ao sacrifício, dando xeque, sem escala em nenhuma casa intermediária e sem ser capturado de graça.
2. Dama com caminho até h5. A dama tem que alcançar a coluna h em um lance, o que na prática exige a diagonal d1 h5 desimpedida ou a casa h5 acessível por outra rota curta.
3. Nenhum defensor cobrindo f6 e h5. Um cavalo preto em f6 mata a ideia inteira: ele cobre h5, tira a casa da dama, e a partida vira uma peça a menos sem compensação.
A outra metade do erro é de sequência, e ela é a mais fácil de corrigir. O sacrifício em h7 é sempre o último item da preparação, nunca o primeiro. As peças chegam antes, a casa f6 esvazia antes, e o bispo cai depois.
Na partida de hoje, o peão de h avançou no quinto lance e o cavalo preto saiu de f6 no sexto. Só no sétimo o bispo caiu, quando as três exigências já estavam cumpridas ao mesmo tempo no tabuleiro.
O caminho de saída existe e cabe numa regra curta. Antes de entregar o bispo, aponte com o dedo, na sua cabeça, as duas peças que vão dar xeque nos dois lances seguintes. Se você não achar as duas, o bispo fica onde está.
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