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O bispo em f6 que prendeu o rei de Lasker
Moscou, 1925, Torre entrega a dama no lance 25 e o rei preto passa sete lances preso entre g8 e h8 enquanto a torre limpa a sétima fileira.
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O bispo branco em f6 e a torre entrando na sétima
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O xeque descoberto é a única jogada do xadrez em que a peça que se move não é a peça que dá o xeque. Quem move sai livre pra fazer o que quiser em qualquer canto do tabuleiro, porque o adversário está obrigado a cuidar do rei antes de qualquer outra coisa.
Monte o desenho num tabuleiro vazio. Rei preto em h8, peão preto em g7 ainda de pé, bispo branco em f6 olhando a diagonal grande. Enquanto o peão de g7 estiver ali, o bispo não dá xeque nenhum, porque o próprio peão tampa a linha.
Agora tire o peão de g7 e ponha uma torre branca no lugar dele. A torre em g7 dá xeque sozinha, e o rei não pode comer, porque o bispo de f6 defende a casa. Sobra uma resposta legal só, o rei pra g8.
E aqui aparece a máquina. A torre sai de g7, come o que estiver na sétima fileira e, ao sair, destampa a diagonal: xeque de novo, agora do bispo. O rei volta pra h8, obrigado. A torre volta pra g7 e dá xeque outra vez. O rei volta pra g8. O circuito recomeça com uma peça a menos do lado de lá a cada volta.
Cada volta é um lance de graça, porque o defensor nunca ganha um lance livre pra reagir. Ele passa a combinação inteira escolhendo entre duas casas, e o resto do tabuleiro fica aberto pra torre limpar no ritmo dela.
O padrão tem nome, moinho, e cobra três coisas ao mesmo tempo: um bispo firme na diagonal grande, uma torre que alcance a sétima fileira e um rei adversário sem casa de fuga fora daquelas duas.
O preço de montar o desenho costuma ser alto, e é aí que a maioria desiste antes de terminar a conta. Na posição de hoje o preço foi a dama, oferecida num lance de bispo, com o ex-campeão do mundo sentado do outro lado do tabuleiro.
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I A Posição do Dia
Torre entrega a dama no lance 25
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Uma dama sem defesa em h5, um bispo indo pra casa onde qualquer peão come e um rei preto com duas casas pra escolher. Veja o que Torre contou antes de largar a peça mais cara do tabuleiro.
Moscou, novembro de 1925, torneio internacional. Carlos Torre Repetto, mexicano de vinte anos, conduz as brancas contra Emanuel Lasker, de cinquenta e seis, que segurou o título mundial por vinte e sete anos seguidos até 1921.
A abertura é a que hoje leva o nome do próprio Torre: 1.d4 Cf6 2.Cf3 e6 3.Bg5, com o bispo saindo cedo pra encostar no cavalo de f6.
No lance 22 as brancas levantam a torre pra g3, apontada pra coluna do rei preto. Lasker responde 22...h6, atacando o bispo de g5. O bispo não sai.
Ele fica parado três lances seguidos, atacado o tempo todo, enquanto a partida segue com 23.Cc4 Dd5 24.Ce3 Db5. Comer o bispo custa caro, porque hxg5 abre a coluna h e a dama branca recaptura em g5, de onde ameaça o mate em g7 com a torre de g3 atrás.
O desenho no lance 25 é este. Brancas com dama em h5, torre em g3, bispo em g5 e cavalo em e3. Pretas com rei em g8, dama em b5, bispo em b7 e os peões de f7, g7 e h6 ainda no lugar.
25.Bf6. O bispo, que já estava atacado, anda pra uma casa onde o peão de g7 come de graça, e ainda larga a dama de h5 sem defesa nenhuma.
O lance carrega duas ameaças na mesma casa. Se as pretas ignorarem, vem 26.Dxh6 com mate em g7 logo atrás. Se as pretas comerem com 25...gxf6, a coluna do rei abre com a torre de g3 já apontada pra dentro.
Lasker escolhe a peça mais cara e come a dama: 25...Dxh5. As brancas ficam uma dama inteira abaixo, com o bispo de f6 de pé e a torre de g3 pronta pra entrar.
26.Txg7+. A torre ocupa a sétima fileira defendida pelo bispo. O rei preto vai pra h8, porque comer a torre não é resposta legal.
A partir daí a máquina gira sozinha: 27.Txf7+ Rg8 28.Tg7+ Rh8 29.Txb7+ Rg8 30.Tg7+ Rh8 31.Tg5+ Rh7 32.Txh5.
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Em nenhum dos sete lances entre o 26 e o 32 as pretas tiveram escolha. Rei pra h8, rei pra g8, rei pra h8. O moinho não depende de erro do adversário, depende da geometria do tabuleiro.
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32.Txh5 devolve a dama pro tabuleiro. Só no lance 33, depois de 33.Th3, Lasker consegue tirar o bispo do caminho com 33...Rxf6, e usa pra tarefa o próprio rei, a única peça dele que estava livre.
34.Txh6+ leva mais um peão com xeque. A conta do circuito fecha simples: dama por dama, bispo por bispo e três peões de lucro, os de g7, f7 e h6.
O resto foi técnica. A torre branca voltou pra terceira fileira, o cavalo entrou em c4 e no lance 42 as brancas comeram o peão de e6 com xeque. Lasker parou o relógio no lance 43.
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II O Erro Mais Jogado
O recuo que apaga o moinho
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Peça atacada não pede recuo, pede pergunta. A pergunta é o que ela segura na casa onde está, e quanto vale o que ela segura.
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Volte pro lance 22, quando Lasker joga h6 e o bispo branco de g5 fica atacado por um peão. Na sua partida, a mão vai sozinha na peça atacada. Recuar pra h4, trocar em f6, voltar pra c1: qualquer coisa que tire a peça do alvo.
É o lance mais jogado do tabuleiro nessa situação, e nada nele é irracional. Peça vale mais que peão, e devolver material sem plano é como se perde partida. O problema é que o reflexo responde antes de a conta terminar.
Naquela posição o bispo de g5 não era uma peça em perigo. Era a peça que segurava o rei preto na caixa, porque só ela podia ocupar f6 e transformar g7 numa casa defendida.
Tire o bispo do desenho e conte de novo. Sem ninguém na diagonal grande, 26.Txg7+ vira uma torre entregue: o rei come, e as brancas ficam sem torre, sem bispo e sem dama.
Existe uma segunda versão do mesmo erro, e ela aparece depois, com o moinho já montado. É disparar o xeque descoberto uma vez, embolsar a peça mais gorda que estiver na fileira e seguir a partida com o material na mão.
Na posição de Torre, seria comer o bispo de b7 no primeiro descoberto e parar por ali. As brancas ficariam com bispo e um peão pela dama, uma troca ruim, e o rei preto sairia da caixa no lance seguinte.
O circuito só paga porque a torre volta pra mesma casa. Cada retorno a g7 é o que obriga o rei a andar de novo, e é o retorno, não a captura, que compra o lance seguinte.
Torre entregou a dama por sete lances e recebeu de volta dama, bispo e três peões. O que o sacrifício comprou não foi material, foi a fila de respostas obrigatórias.
Do lado de quem defende, o erro tem o mesmo formato e troca de dono. Lasker jogou 22...h6 pra atacar um bispo que ele não podia comer. O lance não ganhou peça nenhuma e deixou um peão na sexta fileira, que a torre branca colheu com xeque no lance 34.
Existe um teste barato pra separar os dois casos na sua própria partida. Antes de recuar a peça atacada, pergunte quantas respostas legais o adversário teria se você deixasse ela onde está. Se a resposta for uma só, você não está com uma peça em perigo, está com uma peça trabalhando.
E existe um segundo teste, ainda mais rápido, pra usar no meio de uma sequência de xeques. Conte quantos lances livres o adversário teve desde o primeiro sacrifício. Enquanto o número for zero, o material que você deu é empréstimo. No primeiro lance livre dele, virou doação.
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