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ED 002

O bispo em f6 que prendeu o rei de Lasker

Moscou, 1925, Torre entrega a dama no lance 25 e o rei preto passa sete lances preso entre g8 e h8 enquanto a torre limpa a sétima fileira.

Tabuleiro visto de cima com o bispo branco em f6 e a torre branca entrando na sétima fileira, ao lado do rei preto encurralado.

O bispo branco em f6 e a torre entrando na sétima

 

O xeque descoberto é a única jogada do xadrez em que a peça que se move não é a peça que dá o xeque. Quem move sai livre pra fazer o que quiser em qualquer canto do tabuleiro, porque o adversário está obrigado a cuidar do rei antes de qualquer outra coisa.

Monte o desenho num tabuleiro vazio. Rei preto em h8, peão preto em g7 ainda de pé, bispo branco em f6 olhando a diagonal grande. Enquanto o peão de g7 estiver ali, o bispo não dá xeque nenhum, porque o próprio peão tampa a linha.

Agora tire o peão de g7 e ponha uma torre branca no lugar dele. A torre em g7 dá xeque sozinha, e o rei não pode comer, porque o bispo de f6 defende a casa. Sobra uma resposta legal só, o rei pra g8.

E aqui aparece a máquina. A torre sai de g7, come o que estiver na sétima fileira e, ao sair, destampa a diagonal: xeque de novo, agora do bispo. O rei volta pra h8, obrigado. A torre volta pra g7 e dá xeque outra vez. O rei volta pra g8. O circuito recomeça com uma peça a menos do lado de lá a cada volta.

Cada volta é um lance de graça, porque o defensor nunca ganha um lance livre pra reagir. Ele passa a combinação inteira escolhendo entre duas casas, e o resto do tabuleiro fica aberto pra torre limpar no ritmo dela.

O padrão tem nome, moinho, e cobra três coisas ao mesmo tempo: um bispo firme na diagonal grande, uma torre que alcance a sétima fileira e um rei adversário sem casa de fuga fora daquelas duas.

O preço de montar o desenho costuma ser alto, e é aí que a maioria desiste antes de terminar a conta. Na posição de hoje o preço foi a dama, oferecida num lance de bispo, com o ex-campeão do mundo sentado do outro lado do tabuleiro.

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I  A Posição do Dia

Torre entrega a dama no lance 25

Uma dama sem defesa em h5, um bispo indo pra casa onde qualquer peão come e um rei preto com duas casas pra escolher. Veja o que Torre contou antes de largar a peça mais cara do tabuleiro.

Moscou, novembro de 1925, torneio internacional. Carlos Torre Repetto, mexicano de vinte anos, conduz as brancas contra Emanuel Lasker, de cinquenta e seis, que segurou o título mundial por vinte e sete anos seguidos até 1921.

A abertura é a que hoje leva o nome do próprio Torre: 1.d4 Cf6 2.Cf3 e6 3.Bg5, com o bispo saindo cedo pra encostar no cavalo de f6.

No lance 22 as brancas levantam a torre pra g3, apontada pra coluna do rei preto. Lasker responde 22...h6, atacando o bispo de g5. O bispo não sai.

Ele fica parado três lances seguidos, atacado o tempo todo, enquanto a partida segue com 23.Cc4 Dd5 24.Ce3 Db5. Comer o bispo custa caro, porque hxg5 abre a coluna h e a dama branca recaptura em g5, de onde ameaça o mate em g7 com a torre de g3 atrás.

O desenho no lance 25 é este. Brancas com dama em h5, torre em g3, bispo em g5 e cavalo em e3. Pretas com rei em g8, dama em b5, bispo em b7 e os peões de f7, g7 e h6 ainda no lugar.

25.Bf6. O bispo, que já estava atacado, anda pra uma casa onde o peão de g7 come de graça, e ainda larga a dama de h5 sem defesa nenhuma.

O lance carrega duas ameaças na mesma casa. Se as pretas ignorarem, vem 26.Dxh6 com mate em g7 logo atrás. Se as pretas comerem com 25...gxf6, a coluna do rei abre com a torre de g3 já apontada pra dentro.

Lasker escolhe a peça mais cara e come a dama: 25...Dxh5. As brancas ficam uma dama inteira abaixo, com o bispo de f6 de pé e a torre de g3 pronta pra entrar.

26.Txg7+. A torre ocupa a sétima fileira defendida pelo bispo. O rei preto vai pra h8, porque comer a torre não é resposta legal.

A partir daí a máquina gira sozinha: 27.Txf7+ Rg8 28.Tg7+ Rh8 29.Txb7+ Rg8 30.Tg7+ Rh8 31.Tg5+ Rh7 32.Txh5.

Em nenhum dos sete lances entre o 26 e o 32 as pretas tiveram escolha. Rei pra h8, rei pra g8, rei pra h8. O moinho não depende de erro do adversário, depende da geometria do tabuleiro.

32.Txh5 devolve a dama pro tabuleiro. Só no lance 33, depois de 33.Th3, Lasker consegue tirar o bispo do caminho com 33...Rxf6, e usa pra tarefa o próprio rei, a única peça dele que estava livre.

34.Txh6+ leva mais um peão com xeque. A conta do circuito fecha simples: dama por dama, bispo por bispo e três peões de lucro, os de g7, f7 e h6.

O resto foi técnica. A torre branca voltou pra terceira fileira, o cavalo entrou em c4 e no lance 42 as brancas comeram o peão de e6 com xeque. Lasker parou o relógio no lance 43.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

O recuo que apaga o moinho

Peça atacada não pede recuo, pede pergunta. A pergunta é o que ela segura na casa onde está, e quanto vale o que ela segura.

Volte pro lance 22, quando Lasker joga h6 e o bispo branco de g5 fica atacado por um peão. Na sua partida, a mão vai sozinha na peça atacada. Recuar pra h4, trocar em f6, voltar pra c1: qualquer coisa que tire a peça do alvo.

É o lance mais jogado do tabuleiro nessa situação, e nada nele é irracional. Peça vale mais que peão, e devolver material sem plano é como se perde partida. O problema é que o reflexo responde antes de a conta terminar.

Naquela posição o bispo de g5 não era uma peça em perigo. Era a peça que segurava o rei preto na caixa, porque só ela podia ocupar f6 e transformar g7 numa casa defendida.

Tire o bispo do desenho e conte de novo. Sem ninguém na diagonal grande, 26.Txg7+ vira uma torre entregue: o rei come, e as brancas ficam sem torre, sem bispo e sem dama.

Existe uma segunda versão do mesmo erro, e ela aparece depois, com o moinho já montado. É disparar o xeque descoberto uma vez, embolsar a peça mais gorda que estiver na fileira e seguir a partida com o material na mão.

Na posição de Torre, seria comer o bispo de b7 no primeiro descoberto e parar por ali. As brancas ficariam com bispo e um peão pela dama, uma troca ruim, e o rei preto sairia da caixa no lance seguinte.

O circuito só paga porque a torre volta pra mesma casa. Cada retorno a g7 é o que obriga o rei a andar de novo, e é o retorno, não a captura, que compra o lance seguinte.

Torre entregou a dama por sete lances e recebeu de volta dama, bispo e três peões. O que o sacrifício comprou não foi material, foi a fila de respostas obrigatórias.

Do lado de quem defende, o erro tem o mesmo formato e troca de dono. Lasker jogou 22...h6 pra atacar um bispo que ele não podia comer. O lance não ganhou peça nenhuma e deixou um peão na sexta fileira, que a torre branca colheu com xeque no lance 34.

Existe um teste barato pra separar os dois casos na sua própria partida. Antes de recuar a peça atacada, pergunte quantas respostas legais o adversário teria se você deixasse ela onde está. Se a resposta for uma só, você não está com uma peça em perigo, está com uma peça trabalhando.

E existe um segundo teste, ainda mais rápido, pra usar no meio de uma sequência de xeques. Conte quantos lances livres o adversário teve desde o primeiro sacrifício. Enquanto o número for zero, o material que você deu é empréstimo. No primeiro lance livre dele, virou doação.

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III  O Padrão que Se Repete

Rei em duas casas, torre na sétima

O moinho tem quase um século de catálogo e continua caindo em partida de dez minutos, porque as três peças que ele pede são as mais comuns do meio-jogo.

"No tabuleiro de xadrez, a mentira e a hipocrisia não duram muito."

Emanuel Lasker, Lasker's Manual of Chess, 1927

Lasker escreveu a frase dois anos depois de sair do lado errado do circuito, e ela descreve bem o mecanismo. Nada ali depende de o adversário se enganar. Cada xeque tem uma resposta legal só, e a conta pode ser fechada antes de o primeiro lance sair da mão.

Num desenho fechado assim, o sacrifício de dama do lance 25 não é aposta. É empréstimo com prazo marcado: sete lances depois a dama volta pro tabuleiro, e os peões colhidos no caminho são o juro.

A moldura se repete inteira em três condições, e vale conferir as três antes de calcular qualquer coisa.

1. Um bispo seu firme numa diagonal longa, com o rei adversário na ponta dela. Contra rei em h8, a casa de encaixe é f6. Contra rei em h1, é f3. Os espelhos do outro flanco valem igual.

2. Uma torre que alcance a fileira colada no rei, defendida por esse bispo. É a defesa do bispo que impede o rei de comer, e é ela que transforma um xeque comum em porta giratória.

3. Um rei adversário com no máximo duas casas, as duas dentro do circuito. Uma terceira casa fora do desenho, uma peça que interponha na diagonal ou um xeque de volta, e o moinho para no primeiro giro.

A exceção que vale guardar é o contra-xeque. Se o defensor tiver uma peça capaz de dar xeque no momento em que a torre sai da sétima, ele ganha o lance livre que o circuito inteiro existia pra negar, e a conta do sacrifício vira prejuízo. Antes de largar material, olhe as linhas abertas pro seu próprio rei.

Na sua próxima partida rápida, o padrão chega por um caminho previsível. As peças menores vão saindo, sobra um bispo apontado pra diagonal grande, o adversário fecha o roque e mantém os peões de f7, g7 e h7 no lugar. Da hora que o seu bispo pisa em f6 até a torre chegar na sétima, o trabalho é de contagem.

Quem treina a moldura ganha duas coisas. Enxerga o sacrifício quando ele está lá, e para de largar material quando ele não está.

Xeque descoberto que dispara uma vez é um lance. Xeque descoberto que volta pra mesma casa é uma máquina.

"Na sua última combinação, quantos lances livres você deixou pro adversário?"

 
 
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Quiz da edição

No lance 26, a torre branca entra em g7 dando xeque. Por que o rei preto não podia simplesmente comer a torre?

APorque o cavalo branco em e3 controlava a casa g7
BPorque o bispo branco em f6 defendia a casa g7
CPorque a dama branca em h5 ainda mirava o rei
DPorque as pretas estavam em zugzwang e qualquer lance perdia mais material

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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