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Najdorf em São Paulo, 45 partidas de olhos vendados
Em 1947, Najdorf jogou 45 partidas sem ver tabuleiro durante 23 horas. A posição do dia é o mate de peão que o tornou conhecido.
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Glucksberg x Najdorf, Varsóvia 1929, após 22.fxe5
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U ma em 45. Essa era a fração da atenção de Miguel Najdorf que cada tabuleiro recebia na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, entre 24 e 25 de janeiro de 1947. Quem sentava numa das 45 mesas enfrentava um mestre que não via peça nenhuma e que só voltava àquela partida depois de passar pelas outras 44. Najdorf jogou às cegas (sem olhar para tabuleiro algum, recebendo os lances pela voz de um auxiliar) numa simultânea (exibição em que um jogador enfrenta vários adversários ao mesmo tempo) que durou cerca de 23 horas. O placar final foi de 39 vitórias, 4 empates e 2 derrotas, segundo o livro Miguel Najdorf, el hijo de Caissa, de Nicolás Capeika Calvo, publicado em Buenos Aires em 2002. A entrada era gratuita. Em cada mesa, até cinco pessoas podiam discutir o lance juntas, e o grande mestre austríaco Erich Eliskases cuidava da arbitragem. Najdorf parou algumas vezes para tomar banho e descansar os olhos, e em vários tabuleiros anunciou mate em três a seis lances, sem ver nada. Os detalhes vêm do relato de Luciano Nilo de Andrade, que jogou no tabuleiro 27 e perdeu. O motivo que Najdorf contava nas entrevistas era pessoal. Ele estava na Argentina desde a Olimpíada de Buenos Aires de 1939, e a família tinha ficado na Polônia durante a guerra. Um recorde mundial daria manchete, e a manchete talvez chegasse a algum parente vivo. A esperança não se cumpriu. Os pais, a mulher e a filha de Najdorf tinham sido mortos no Holocausto, e o recorde não trouxe nenhum deles de volta. O recorde ficou: os historiadores Eliot Hearst e John Knott tratam as 45 partidas de São Paulo como a maior simultânea às cegas de circunstâncias não contestadas. Guardar 45 partidas de cabeça pede um arquivo interno de posições conhecidas. A seção I abre numa das mais famosas do arquivo de Najdorf, o mate de peão que ele deu em Varsóvia aos 19 anos, e que qualquer leitor confere lance a lance. Continue lendo ↓
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I A Posição do Dia
O mate de peão em Varsóvia
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Miguel Najdorf tinha 19 anos quando jogou de pretas contra Glucksberg em Varsóvia, em 1929. A partida ganhou o apelido de Imortal Polonesa, e o diagrama mostra o momento decisivo: as brancas acabaram de jogar 22.fxe5, e o rei branco está em g4, no meio do campo preto. A partida começou numa Defesa Holandesa (resposta a 1.d4 com o peão f avançando duas casas, 1...f5), abertura que Najdorf usou para atacar a ala do rei desde cedo. As pretas montaram a estrutura em pedra, com peões em c6, d5, e6 e f5, e esperaram o roque branco. O caminho até ali foi uma caçada ao rei (sequência de xeques que arrasta o rei adversário para longe da proteção). No lance 9, Najdorf entregou o bispo em h2 com xeque. Quatro lances depois, levou o mesmo bispo para g1, onde o cavalo branco o capturou, só para abrir a coluna h à dama preta. Depois vieram os cavalos. Os dois foram entregues na casa e5, sempre com xeque, e o rei branco foi subindo: f3, f4, f3 de novo e, no lance 21, g4, quando capturou o outro bispo preto, que dava xeque ali. Na conta de material, as brancas estão com quatro peças menores a mais: dois bispos e dois cavalos contra nenhum. Na conta de casas livres, o rei branco não tem para onde ir. |
Com dama, duas torres e peões ainda no tabuleiro, as pretas dão mate com o menor peão da posição: 22...h5.
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O peão em h5 dá xeque no rei em g4. As saídas estão todas fechadas, e cada uma tem dono: 1. A dama preta em h2 controla h3, h4 e a própria h5 pela coluna aberta, e o rei não pode capturar o peão. 2. A torre preta em f8 corre pela coluna f vazia e fecha f3, f4 e f5. 3. A casa g5 está ocupada pelo cavalo branco, e a casa g3 pelo peão branco. As 45 partidas de São Paulo existem em papel, nas páginas 169 a 179 do livro de Capeika Calvo, mas nenhuma delas circula com lances confiáveis nas bases públicas de partidas. Por essa razão a posição do dia vem de Varsóvia, de uma partida que qualquer base confirma lance a lance. A partida entrou nas coletâneas de sacrifícios como um dos exemplos mais limpos de caçada ao rei do século XX.
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II O Erro Mais Jogado
O rei que aceita todo convite
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O erro mais jogado contra uma caçada ao rei é capturar cada peça oferecida com o próprio rei, porque a conta de material sobe enquanto a conta de casas livres cai.
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Glucksberg não fez nada absurdo em lance nenhum. Cada captura parecia lucro: um bispo em g1, um cavalo em e5, outro bispo em g4. Em quase todas as vezes, a captura era também o único lance legal ou o menos ruim, e foi assim que o rei atravessou o tabuleiro. O ponto em que a partida se perde costuma ser anterior aos xeques. Em Varsóvia, o roque pequeno das brancas ficou com poucos defensores depois de 8.Ne2 e 9.Ng5, e o bispo preto encontrou h2 aberto. Quando a caçada começa, o defensor já não escolhe mais o caminho. Nos torneios de clube, o erro aparece em escala menor. O jogador aceita o sacrifício de bispo em h7 ou h2, conta a peça a mais e só depois descobre que o rei ficou sem escudo de peões e que a dama adversária chega em dois lances. O segundo erro vem de quem ataca. Quem entrega peças sem ter o mate calculado até o fim fica com o rei adversário exposto e com material a menos. Se o ataque para um lance antes, a partida está perdida. Na simultânea às cegas o risco dobra. Najdorf não via o tabuleiro e precisava lembrar quais peças já tinha entregado em cada mesa. Um sacrifício esquecido virava uma peça fantasma (peça que o jogador imagina no tabuleiro, mas que já saiu dele), e o cálculo desabava. ANTES DE CAPTURAR COM O REI 1. Conte as casas livres em volta do rei depois da captura, e não só o material ganho. 2. Veja quais peças adversárias chegam com xeque no lance seguinte, a dama primeiro. 3. Se a resposta for mais de uma, procure devolver o material com lance de defesa, e não com o rei. Quem ataca usa as mesmas três perguntas ao contrário, antes de entregar a primeira peça. Se a dama não chega com xeque no lance seguinte ao sacrifício, o ataque costuma parar no meio, e a peça entregue não volta.
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