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Mecking vence o Interzonal de Petrópolis aos 21 anos

Em 1973, o gaúcho supera a elite soviética e leva o Brasil ao Torneio de Candidatos pela primeira vez.

Diagrama: posição de Lucena, rei branco em b8, peão em b7 e torre em c1 contra rei em d7 e torre em a2.

Posição de Lucena, brancas jogam Td1+

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U ma em 6. Era a chance média de cada um dos 18 jogadores do Interzonal de Petrópolis, em 1973, sair com uma das 3 vagas para o Torneio de Candidatos (a fase que escolhe quem desafia o campeão mundial). Para um brasileiro de 21 anos, a conta parecia generosa demais.

Henrique da Costa Mecking nasceu em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em janeiro de 1952. Ganhou o campeonato brasileiro aos 13 anos e recebeu o título de grande mestre em 1972, o maior que a federação internacional concede.

O salão de Petrópolis, na serra fluminense, reunia a escola que dominava o jogo desde os anos 1940. Estavam lá os soviéticos Efim Geller e Lev Polugaevsky e o húngaro Lajos Portisch, todos com anos de experiência em torneios de classificação.

O Brasil nunca tinha mandado ninguém aos Candidatos. Um Interzonal (torneio que reúne os melhores de cada zona do mundo) jogado em casa dava ao país uma plateia, mas não dava pontos: cada um deles saía de partidas de cinco horas contra adversários mais rodados.

Mecking terminou com 12 pontos em 17 partidas. Geller, Polugaevsky e Portisch empataram meio ponto atrás, e um desempate entre os três tirou Portisch da disputa.

O primeiro lugar foi construído em partidas longas. Muitas chegavam ao final (a fase da partida em que sobram poucas peças) com vantagem pequena, e o brasileiro seguia jogando posições que outros aceitariam empatar, até o adversário errar uma casa.

Essa paciência tinha base de estudo. Todo enxadrista que quer ganhar finais aprende cedo a mesma posição de torre e peão contra torre, porque ela ensina a transformar um peão a uma casa da coroação em ponto inteiro.

A posição de estudo que abre a seção I é essa, montada no diagrama com as brancas para jogar.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Posição do Dia

A ponte que leva o peão

Henrique Mecking ganhava pontos onde outros cediam empates, e o caminho começa por um final que parece simples. No diagrama, as brancas têm rei em b8, peão em b7 e torre em c1. As pretas têm rei em d7 e torre em a2.

Esta é uma posição de estudo, não um lance de Petrópolis. É a base técnica que todo jogador de torneio carrega para partidas como as que o brasileiro jogou na serra.

O nome dela é posição de Lucena, por causa de Luis Ramírez de Lucena, autor espanhol de um livro de xadrez impresso em 1497. A posição não aparece nesse livro: o registro mais antigo que se conhece está no tratado do italiano Alessandro Salvio, de 1634. O nome ficou por engano e nunca mais saiu.

O problema das brancas é o rei. Ele está em b8, na frente do próprio peão, e o peão só coroa quando o rei sai dali. Se o rei sai, a torre preta começa a dar xeques de longe, e o rei branco não tem onde se esconder.

Na posição de Lucena, o peão só coroa quando a torre branca vira escudo contra os xeques da torre preta.

O plano tem três passos, e a notação usa as iniciais em português (R para rei, T para torre):

1. Td1+ (torre para d1, com xeque). O rei preto precisa se afastar para a coluna e e deixa de vigiar a casa c7.

2. Depois de 1...Re7, a torre vai para a quarta fileira com 2.Td4. Os livros chamam esse lance de construir a ponte.

3. O rei branco sai pela casa c7 e desce em zigue-zague, recebendo os xeques. Quando chega a b5, a torre se coloca em b4 e corta o último xeque.

A sequência completa mostra o mecanismo. Depois de 2...Ta1, vem 3.Rc7 Tc1+ 4.Rb6 Tb1+ 5.Rc6 Tc1+ 6.Rb5 Tb1+ 7.Tb4. A torre preta fica sem xeque, e o peão coroa no lance seguinte.

A quarta fileira tem uma razão exata. O rei branco precisa de espaço para descer até a quinta fileira, e a torre precisa estar uma fileira abaixo dele para se colocar na coluna do peão no momento certo.

Se o rei preto voltar para perto do peão, a torre branca o empurra de novo com xeque. Se a torre preta tentar dar xeque pela frente, o rei branco se aproxima dela e ganha tempo.

Mecking dominava esse tipo de técnica. A partida longa terminava num final de manual, e quem sabia o caminho ganhava sem calcular do zero.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

O rei que sai cedo demais

O erro mais jogado na posição de Lucena é tirar o rei da frente do peão antes de cortar o rei preto e construir a ponte.

O lance tentador é 1.Rc7, saindo direto para abrir caminho ao peão. A resposta é 1...Tc2+, e o rei branco começa a fugir dos xeques sem fim.

Depois de 2.Rb6 Tb2+ 3.Ra6 Ta2+ 4.Rb5 Tb2+, o rei branco não tem casa coberta. A torre preta repete os xeques pela coluna e pela fileira, e a partida termina empatada por repetição (a regra que dá empate quando a mesma posição aparece três vezes).

O segundo erro vem antes: pular o xeque inicial. Com o rei preto em d7, a casa c7 fica vigiada, e o rei branco não consegue sair por ali. Sem 1.Td1+, a torre branca fica parada em c1 e o plano não começa.

O terceiro erro é montar a ponte cedo demais, antes de o rei preto estar afastado. A torre na quarta fileira não protege nada se o rei adversário ainda pode voltar para o lado do peão.

ANTES DE TIRAR O REI DA FRENTE DO PEÃO

1. Confira se o rei preto está pelo menos uma coluna longe do peão.

2. Coloque a sua torre na quarta fileira, contando a partir do seu lado.

3. Só então saia com o rei e receba os xeques em zigue-zague.

Do lado da defesa, o erro espelhado é a torre preta perto demais. Quem dá xeque a uma ou duas casas de distância deixa o rei branco se aproximar e capturar a torre ou ganhar tempo.

A defesa correta para o lado mais fraco tem outro nome. Na posição de Philidor (defesa que leva o nome do enxadrista e músico francês François-André Danican Philidor), a torre preta fica na terceira fileira e impede o rei branco de avançar, o que segura o empate enquanto o peão ainda não chegou longe.

Quando o peão já está na sétima fileira com o rei na frente, como no diagrama, a defesa de Philidor não funciona mais. Assim, o lado mais forte vence se conhecer a ponte, e o lado mais fraco só salva a partida se o adversário errar a ordem dos lances.

O erro custa caro porque a posição é simples. Um jogador que já ganhou dezenas de vezes no treino pode sair com o rei por hábito e entregar meio ponto.

 

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III  O Padrão que Se Repete

O brasileiro que ficou sozinho

O padrão que Petrópolis revela é o da classificação feita em torneio longo: vence quem soma pontos em partidas que pareciam empatadas. O primeiro lugar de Henrique Mecking veio de rodada em rodada, e não de uma vitória espetacular.

A vaga levou o brasileiro aos Candidatos de 1974. Nas quartas de final, ele enfrentou o soviético Viktor Korchnoi em Augusta, nos Estados Unidos, e perdeu o match por 7,5 a 5,5.

Classificar-se para os Candidatos pede somar pontos por semanas seguidas, e a diferença entre o primeiro e os seguintes quase sempre sai na fase final das partidas.

Mecking repetiu a façanha. Em 1976, ganhou o Interzonal de Manila, nas Filipinas, e voltou aos Candidatos em 1977. Perdeu de novo nas quartas, desta vez para Lev Polugaevsky, em Lucerna, na Suíça, por 6,5 a 5,5.

Na lista de classificação da federação internacional de 1977, ele aparecia em quarto lugar no mundo.

A carreira parou pouco depois. No fim dos anos 1970, Mecking recebeu o diagnóstico de miastenia grave (doença autoimune que enfraquece os músculos) e se afastou das competições.

Voltou a jogar em 1991, depois de uma recuperação que ele atribui à fé católica. Seguiu ativo em torneios no Brasil e no exterior, mas não disputou mais ciclos de Candidatos.

Desde 1977, nenhum outro brasileiro jogou o Torneio de Candidatos. O país formou grandes mestres e campeões continentais, mas a vaga que Mecking ganhou duas vezes continua sem segundo dono brasileiro.

Três sinais mostram que um final de torre e peão está pronto para virar ponto:

1. O peão já chegou à sétima fileira, com o próprio rei na frente.

2. O rei adversário está separado do peão por pelo menos uma coluna.

3. A sua torre consegue chegar à quarta fileira em um lance.

Quando os três aparecem juntos, a vitória é técnica: basta seguir a ordem do xeque, da ponte e da descida do rei.

Na sua última partida com torre e peão a mais, você construiu a ponte ou saiu com o rei antes da hora?

Confira no diagrama, com um tabuleiro na mão:
qual lance de torre dá o xeque que afasta o rei preto;
em qual fileira a torre branca monta a ponte;
em qual casa o rei branco está quando a torre se coloca em b4.

 
 
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Quiz da edição

Na posição de Lucena, qual é o primeiro lance do plano das brancas segundo a edição?

A1.Rc7
B2.Td4
C1.Td1+
D7.Tb4

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