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Max Euwe, o professor de matemática campeão do mundo

Em 1935, Euwe venceu Alekhine por 15,5 a 14,5. Na partida 26, um salto de cavalo com xeque encerrou a luta no lance 47.

Diagrama: Euwe x Alekhine, Zandvoort 1935, brancas jogam 47.Ce4+

Euwe x Alekhine, Zandvoort 1935, antes de 47.Ce4+

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Uma em 24. Era a chance de acertar no chute o lance final da partida 26, porque as brancas tinham 24 lances legais na posição desta edição. Para Max Euwe, sentado diante de Alexander Alekhine em Zandvoort, na costa da Holanda, em 3 de dezembro de 1935, a conta não passava por chute nenhum.

Euwe nasceu em Amsterdã em 1901, defendeu doutorado em matemática em 1926 e dava aulas num liceu feminino da cidade. O xadrez cabia nas férias e nas folgas da escola. Ele nunca viveu do tabuleiro.

Alekhine era o contrário. Campeão do mundo desde 1927, quando tirou o título de José Raúl Capablanca em Buenos Aires, vivia de torneios, simultâneas e livros, e chegou ao match como favorito absoluto.

O match teve 30 partidas, jogadas em cidades diferentes da Holanda entre outubro e dezembro de 1935. Euwe venceu nove, Alekhine venceu oito, e as 13 restantes terminaram empatadas. Placar final: 15,5 a 14,5 para o professor.

A partida 26 ficou conhecida como a Pérola de Zandvoort. Alekhine escolheu a Defesa Holandesa (abertura em que as pretas respondem a d4 com o peão de f para f5), e Euwe abriu o centro no lance 21 entregando um bispo por peões.

O final da partida não pede cálculo de mestre. Pede um olhar que todo jogador de clube pode treinar: ver quais casas um cavalo alcança antes de pegar um peão que parece de graça.

Alekhine pegou o peão. Euwe respondeu com o lance que um jogador de fim de semana encontra quando conhece um padrão só, e o campeão abandonou em seguida.

A Posição do Dia mostra o tabuleiro no instante em que esse lance aparece, com as brancas a jogar.

Na notação desta edição, R é rei, D é dama, T é torre, B é bispo e C é cavalo. O sinal + marca xeque.

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I  A Posição do Dia

O cavalo que entra com xeque

Max Euwe tem as brancas contra Alexander Alekhine, Zandvoort, 1935, partida 26 do match pelo título mundial. A posição é a de depois de 46...Txe7, e as brancas jogam o lance 47.

As brancas têm torre, cavalo e cinco peões. As pretas têm duas torres e quatro peões. Na contagem simples, Alekhine está com material a mais, porque acabou de capturar o peão branco que chegava a e7.

O peão não era detalhe. Ele estava a uma casa de virar dama, e a torre preta de e8 vivia presa na frente dele. Quando a torre preta o tomou, parecia o fim da ameaça.

O Stockfish (programa de análise de xadrez), rodado nesta posição a 24 lances de profundidade, discorda da contagem. Ele dá às brancas vantagem de quase seis unidades, o equivalente a uma torre e um peão.

O LANCE DO DIA

Euwe joga 47.Ce4+. O cavalo salta de d6 para e4 e dá xeque no rei preto em g5.

Da casa e4, o mesmo cavalo também ataca d2, onde está a outra torre preta. É um garfo (ataque de uma peça a duas ao mesmo tempo), e o xeque obriga o rei a sair antes de qualquer outra providência.

O rei tem cinco casas: f5, f4, g4, h4 ou h5. Em qualquer delas, as brancas jogam 48.Cxd2 e ficam com uma torre inteira a mais, além do peão passado de d5.

O xeque entrega a torre de graça, porque o rei precisa sair primeiro.

O QUE ALEKHINE FEZ

Alekhine não esperou o lance seguinte. Diante de 47.Ce4+, abandonou a partida, e Euwe somou o ponto na reta final do match.

O motor coloca 47.Ce4+ como primeira escolha, por pouco. A troca direta 47.Txe7 também ganha, com vantagem quase igual, mas exige calcular o final de torre e cavalo contra torre. O garfo resolve em um lance.

Das 24 opções, o lance jogado é o único que ganha uma torre inteira na hora. Os outros mantêm a vantagem e prolongam a partida.

Para achar 47.Ce4+, o jogador não precisa prever uma sequência longa. Precisa de três observações seguidas: o rei adversário está exposto, a torre de d2 está sem proteção e existe uma casa de onde o cavalo toca as duas.

Nenhuma das três exige conhecer a abertura, a história do match ou a teoria de finais. É o tipo de lance que aparece numa partida de domingo no parque, entre dois amadores, com a mesma geometria.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

O peão aceito de graça

O erro mais jogado nesta família de posições é o de Alekhine no lance 46: capturar o peão perigoso sem olhar para onde o cavalo adversário pula.

Para ser justo com o campeão, a posição já estava perdida. O Stockfish avalia 46...Txe7 e a alternativa 46...Td1+ com a mesma vantagem branca, perto de seis unidades. A captura não mudou o resultado, só encurtou a partida.

O padrão do erro, porém, aparece em qualquer nível. O jogador vê uma ameaça grande (um peão prestes a virar dama), resolve a ameaça e para de calcular ali. A peça que resolveu o problema fica bonita, e a casa onde o rei está fica esquecida.

ONDE O REI PRETO ESTAVA

O rei chegou a g5 um lance antes, depois de 45.Te6+. A partir dali, rei em g5 e torre em d2 ficavam a um salto de cavalo de distância da mesma casa, e4.

O motor mostra que 45...Rg7 era um pouco mais resistente. Com o rei em g7, a vantagem branca caía de 5,6 para 4,9 unidades, e a torre de d2 ficava fora do alcance do garfo em e4.

A PERGUNTA ANTES DE CAPTURAR

Antes de tomar um peão que parece de graça, três passos ajudam:

1. Liste as casas que o cavalo adversário alcança no próximo lance.

2. Veja se alguma delas ataca o seu rei e outra peça sua ao mesmo tempo.

3. Se existir uma casa assim, mova o rei ou a peça antes de capturar.

Na posição de Zandvoort, o passo 1 encontra oito casas a partir de d6, e o passo 2 encontra e4, que toca g5 e d2 juntas.

O MESMO ERRO NA PARTIDA DE CLUBE

No clube, o roteiro costuma ser este: o adversário avança um peão perigoso, você gasta dois ou três lances para parar o peão, captura e relaxa. Justo no lance em que a tensão cai, o cavalo dele aparece com xeque.

O cansaço tem papel nesse roteiro. Depois de resolver uma ameaça, o cérebro trata a posição como segura e passa a pensar no plano seguinte. A checagem das casas do cavalo é a primeira a ser pulada.

 

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III  O Padrão que Se Repete

Rei e torre na mesma cor

O padrão que se repete na Pérola de Zandvoort tem nome nos manuais: garfo de cavalo com xeque, ou garfo real quando o rei está entre os alvos.

O cavalo tem uma regra de movimento que ajuda a enxergar o garfo antes dele acontecer. A cada salto, ele troca a cor da casa: de uma casa clara vai sempre para uma escura, e de uma escura vai para uma clara.

Por consequência, todas as casas que um cavalo ataca têm a mesma cor. Para atacar duas peças de uma vez, as duas precisam estar em casas dessa cor.

A CONTA DAS CORES EM ZANDVOORT

Na posição de hoje, o rei preto está em g5 e a torre preta em d2. As duas são casas escuras. O cavalo em e4, uma casa clara, alcança justamente casas escuras.

Se Alekhine tivesse deixado a torre numa casa clara, como d1 ou d3, o mesmo salto daria xeque e nada mais. A diferença entre perder a torre e seguir lutando estava na cor de uma casa.

O SACRIFÍCIO DO LANCE 21

O cavalo de Euwe já tinha feito o mesmo tipo de trabalho no meio da partida. No lance 21, ele jogou 21.Cxf5, aceitando perder o bispo de c3 em troca de peões pretos do centro.

Depois de 21...Bxc3 22.Cxd6, o cavalo saltou para o meio da posição preta, atacando a dama em c8 e o peão de e4 de uma vez. Com 23.Cxe4, Euwe somou três peões pelo bispo. O Stockfish aponta 21.Cxf5 como o melhor lance daquela posição.

A partida inteira mostra o cavalo como a peça que mais engana pela geometria: ele não ataca em linha reta, e o olho treinado em torres e bispos demora a ver as casas dele.

O garfo também não depende do rei. Dama e torre na mesma cor, ou duas torres na mesma cor, servem de alvo do mesmo jeito. O rei só torna o golpe mais forte, porque o xeque tira do adversário o direito de escolher qual peça salvar.

Um treino simples ajuda a fixar o padrão. Monte qualquer posição no tabuleiro, coloque um cavalo numa casa e aponte, sem mover a peça, as casas que ele ataca. Depois confira se alguma peça adversária está em duas delas.

O QUE VEIO DEPOIS DO TÍTULO

Euwe manteve o título por dois anos. Na revanche de 1937, Alekhine venceu e voltou a ser campeão. Euwe seguiu professor, escreveu livros de xadrez e presidiu a FIDE (a federação internacional de xadrez) de 1970 a 1978.

Na sua última partida, em que casa estava o seu rei quando você capturou um peão?

Antes de capturar o próximo peão, confira:

• a cor da casa do seu rei;

• a cor da casa da sua torre mais solta;

• as casas que o cavalo adversário alcança no próximo lance.

 
 
Quiz da edição

Na partida 26 do match de 1935, o lance 47.Ce4+ de Euwe deu xeque ao rei preto em g5 e, no mesmo lance, atacava qual outra peça preta?

AA dama em c8
BA torre em d2
CO bispo em c3
DA torre em e7

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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