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Judit Polgár vence Kasparov em 2002
Em Moscou, a húngara usa o Muro de Berlim contra o número 1 do mundo e ele abandona no lance 42.
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O Muro de Berlim depois de 8...Rxd8
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U ma em 100. Era o peso de cada partida no placar do match Rússia contra o Resto do Mundo, disputado em Moscou em setembro de 2002, com dez jogadores de cada lado e cem partidas no total. Para quase todos ali, uma derrota era só um ponto a menos. Para Garry Kasparov, havia uma partida que pesava bem mais que um centésimo. O adversário daquela rodada era Judit Polgár, húngara de 26 anos, a única mulher entre os vinte jogadores. Kasparov era o número 1 da lista mundial havia mais de uma década e nunca tinha perdido para uma mulher em partida oficial. O match seguia o sistema Scheveningen (formato em que cada jogador de uma equipe enfrenta todos os jogadores da outra, sem adversário fixo). Assim, o encontro entre os dois não era sorteio: estava marcado desde a primeira rodada. As partidas eram de xadrez rápido, com cerca de 25 minutos no relógio para cada lado. A história entre os dois já vinha carregada. Em Linares, na Espanha, em 1994, Kasparov soltou um cavalo numa casa, mudou de ideia e levou a peça para outra. A regra do peça tocada, peça jogada (quem solta a peça no tabuleiro não pode mais mudar o lance) mandava manter a primeira casa. O árbitro não interveio e Judit perdeu aquela partida. Ela vinha de outro recorde. Em dezembro de 1991, Judit virou grande mestre (o título mais alto do xadrez, concedido pela federação internacional) aos 15 anos e 4 meses, mais jovem que Bobby Fischer quando ele conquistou o mesmo título, em 1958. Em Moscou, com as peças brancas, ela abriu com 1.e4. Kasparov respondeu com a defesa que, dois anos antes, tinha custado a ele o título mundial: a Berlinense, a mesma que Vladimir Kramnik usara para neutralizá-lo em Londres, em 2000. A partida terminou no lance 42, com Kasparov abandonando. A seção I monta a posição que decidiu o rumo daquela tarde: o final sem damas que Kasparov aceitou jogar contra ela logo no oitavo lance. Continue lendo ↓
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I A Posição do Dia
O muro que Kasparov escolheu
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A partida Judit Polgár contra Garry Kasparov, disputada em Moscou em 2002, começou pela Espanhola (abertura em que o bispo branco vai a b5 no terceiro lance e pressiona o cavalo preto). Na notação algébrica (cada lance escrito com a letra da peça e a casa de chegada: R é rei, D é dama, T é torre, B é bispo, C é cavalo, e o peão vai sem letra), a linha corre assim: 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.O-O Cxe4 5.d4 Cd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8. Essa variante ganhou o apelido de Muro de Berlim porque as pretas trocam as damas cedo e montam uma defesa difícil de furar. Kramnik a usou em Londres, em 2000, e Kasparov não venceu nenhuma das partidas em que a enfrentou naquele match. Na posição do diagrama, depois de 8...Rxd8, as damas saíram do tabuleiro. O rei preto está em d8, sem direito ao roque (lance especial que leva o rei para o canto, protegido pela torre). As pretas têm dois bispos contra bispo e cavalo das brancas. |
A posição do Muro de Berlim troca a dama por estrutura: as brancas ficam com quatro peões contra três na ala do rei, e as pretas ficam com o par de bispos e um peão dobrado na coluna c.
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O inventário da posição, peça por peça: 1. As brancas têm peões em f2, g2, h2 e e5, quatro contra os três pretos de f7, g7 e h7. 2. As pretas têm peões dobrados (dois peões da mesma cor na mesma coluna) em c7 e c6, o que tira delas a chance de criar um peão passado (peão sem nenhum peão adversário à frente nem nas colunas vizinhas) na ala da dama. 3. O rei preto em d8 fica no centro, mas sem damas no tabuleiro ele não corre risco de mate rápido. 4. O peão branco de e5 tira do cavalo preto as casas d6 e f6, e o cavalo de f5 fica sem apoio fixo. Para as brancas, o plano é empurrar a maioria da ala do rei com f4, g4 e f5 até criar um peão passado. Para as pretas, o plano é abrir diagonais para os bispos e levar o rei até c8 ou e8, onde ele fica tranquilo. Na teoria, a posição é igual. Na prática, as pretas precisam de precisão por muitos lances, e qualquer passo lento dá às brancas tempo para avançar os peões. Contra Kasparov, Judit escolheu justamente o caminho que ele queria evitar: um final longo, sem o ataque rápido que era a marca dele, com o relógio correndo e a pressão toda no lado preto.
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II O Erro Mais Jogado
O rei no centro que não é alvo
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O erro mais jogado pelas brancas no Muro de Berlim é tratar o rei preto em d8 como fraqueza e gastar lances perseguindo ele, quando sem damas o rei vira peça de defesa ativa.
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O raciocínio de quem erra tem lógica aparente. O rei preto perdeu o roque, está na coluna d e parece exposto. O instinto de quem aprendeu a atacar o rei é trazer torres para a coluna d e dar xeques. O problema é o material que sobrou. Sem damas, as brancas não têm peça capaz de montar mate contra um rei cercado por dois bispos e uma torre. Cada xeque empurra o rei preto para c8, uma casa melhor, e as brancas gastam tempo sem avançar os peões. O segundo erro vem junto: avançar a maioria cedo demais. Jogar g4 e f4 antes de desenvolver cavalo, bispo e torres abre casas para os bispos pretos, que passam a mirar o próprio rei branco. A correção que os manuais repetem é desenvolver primeiro. Lances como Cc3, h3, Td1 e Bf4 colocam as peças em casas úteis, e só depois os peões da ala do rei começam a andar, apoiados. ANTES DE ATACAR O REI SEM DAMAS 1. Conte quais peças suas conseguem dar mate de verdade, sem a dama, contra o rei adversário. 2. Pergunte se o xeque melhora ou piora a casa do rei que foge. 3. Se a resposta for piora, use o lance para desenvolver uma peça ou apoiar um peão da maioria. Do lado preto, o erro espelhado é a passividade. Quem joga a Berlinense para empatar e fica esperando costuma ver os peões brancos chegarem a f5 e f6, abrindo a posição do rei com a torre preta ainda presa em h8. No xadrez rápido, os dois erros ficam mais caros. Com 25 minutos para a partida inteira, o jogador de pretas não tem tempo para calcular cada detalhe do final, e o de brancas é tentado a buscar um golpe rápido para poupar relógio. Judit não cometeu nenhum dos dois. Desenvolveu as peças, manteve o peão de e5 firme e deixou que o tempo trabalhasse, até Kasparov, com as pretas, precisar achar lances exatos com o relógio baixo.
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