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ED 082
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De Groot e os 5 segundos diante do tabuleiro

Em 1946, um holandês mostrou posições por instantes. O mestre remontou quase tudo; o clubista largou peças pelo caminho.

Diagrama: Abertura Italiana com 32 peças, brancas jogam 7.Te1

Teste de De Groot: lembre as 32 peças

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Nove em dez. Essa é a fração das peças que um grande mestre recolocava no lugar certo depois de olhar uma posição de partida por poucos segundos, segundo os testes que o psicólogo holandês Adriaan de Groot descreveu no livro Thought and Choice in Chess, de 1965. Para o jogador de clube sentado na mesma cadeira, a fração caía para perto de metade.

O teste era simples de montar. De Groot pegava uma posição tirada de partida real, com umas 25 peças, e mostrava o tabuleiro por um intervalo de 2 a 15 segundos. Depois cobria tudo e entregava um tabuleiro vazio com as peças ao lado.

A tarefa era uma só: pôr cada peça onde ela estava. Sem pensar em lance, sem calcular nada. Só lembrar.

O mestre olhava, desviava os olhos e começava a montar. Rei, torre, três peões na frente do roque, depois o centro, depois os cavalos. Errava uma peça, às vezes duas.

O clubista olhava pelo mesmo tempo e saía com a lembrança de uma nuvem de peças. Acertava o rei, a dama, um ou dois peões perto do centro. O resto ele chutava ou deixava de fora.

De Groot não estava atrás de memória boa. Ele mesmo jogava em nível de mestre e defendeu Het denken van den schaker (O pensamento do enxadrista) como tese de doutorado em Amsterdã, em 1946. Nela, já tinha ouvido grandes mestres como Max Euwe e Alexander Alekhine pensarem em voz alta diante de uma posição.

A surpresa da tese foi negativa. Os mais fortes não calculavam mais lances por minuto nem enxergavam mais longe na árvore de variantes. A diferença estava no primeiro olhar, nos segundos iniciais, quando o mestre já via o que importava.

O teste de memória mediu esse primeiro olhar. Quem entende a posição guarda a posição; quem só vê peças guarda peças, e peça solta escapa.

A Posição do Dia traz um tabuleiro com as 32 peças, tirado de uma abertura comum, e mostra como ele cabe em nove blocos.

Na notação desta edição, R é rei, D é dama, T é torre, B é bispo e C é cavalo.

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I  A Posição do Dia

As 32 peças em nove blocos

A posição de hoje sai da Abertura Italiana depois de 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5 4.c3 Cf6 5.d3 d6 6.O-O O-O, com as brancas para jogar. Estão no tabuleiro as 32 peças do começo da partida, nenhuma trocada.

Faça o teste de Adriaan de Groot em você. Olhe o diagrama por cinco segundos, cubra a tela e tente dizer onde está cada peça.

Quem tenta peça por peça trava perto da décima. São 32 itens, e a memória de curto prazo segura poucos de uma vez. O psicólogo americano George Miller, num artigo de 1956 da Psychological Review, pôs esse limite em torno de sete itens.

O TABULEIRO EM BLOCOS

O jogador experiente não guarda 32 itens. Ele guarda blocos, e cada bloco é uma figura que já viu centenas de vezes.

O primeiro bloco é o roque branco: rei em g1, torre em f1 e peões em f2, g2 e h2. Cinco peças, uma lembrança. O segundo é o roque preto, a mesma figura espelhada em g8, f8, f7, g7 e h7.

O terceiro é o centro fechado: peões em e4 e e5, apoiados por d3 e d6. O quarto é o peão de c3, o detalhe da Italiana que prepara um avanço d4 no futuro.

O quinto e o sexto são os pares de peças menores: bispos em c4 e c5, um mirando o outro; cavalos em f3 e f6, cada um protegendo o seu roque.

Os três últimos são os cantos que ainda não se mexeram. Na ala da dama branca, torre em a1, cavalo em b1, bispo em c1, dama em d1 e peões em a2 e b2. Na preta, torre em a8, bispo em c8, dama em d8 e peões em a7, b7 e c7, mais o cavalo que já saiu para c6.

Quem joga não lembra peças, lembra figuras que já conhece, e cada figura carrega várias peças de uma vez.

O LANCE DO DIA

O lance natural das brancas aqui é 7.Te1. A torre sai de f1 e vai para e1, atrás do peão de e4, a casa onde ela apoia o centro e prepara o avanço d4.

Para o mestre, o lance também se guarda como bloco. A torre em e1 com o peão em e4 forma uma figura conhecida da Italiana, e a posição inteira continua cabendo em nove lembranças em vez de 32.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

A peça que ficou fora do bloco

O erro mais jogado nesta posição não é um lance. É o modo de olhar: o jogador de clube percorre o tabuleiro casa por casa, como quem lê uma lista, e trata cada peça como item isolado.

Lendo assim, ele chega ao lance com uma imagem incompleta. A peça que não entrou em nenhum bloco é a primeira a sumir da cabeça, e é nela que mora o lance perdido.

A PEÇA ESQUECIDA

Na Italiana de hoje, a peça mais esquecida é o bispo de c1. Ele não se mexeu, não ameaça nada e fica escondido atrás do peão de b2 e do cavalo de b1.

Só que é ele que aponta para g5. Num lance futuro como Bg5, o bispo crava o cavalo de f6 contra a dama preta (a cravada é quando a peça da frente não pode sair sem expor a de trás). Quem não guardou o bispo de c1 não enxerga essa jogada.

O TESTE QUE TIROU A VANTAGEM

Em 1973, William Chase e Herbert Simon, da Universidade Carnegie Mellon, repetiram o teste de De Groot com um detalhe novo, publicado na revista Cognitive Psychology. Além das posições de partidas reais, mostraram tabuleiros com as peças espalhadas ao acaso.

Nas posições reais, o mestre do estudo deles repôs na primeira tentativa cerca de 16 peças, e o iniciante, umas quatro. Nas posições sorteadas, a diferença quase sumiu: os dois lembraram poucas peças.

O mestre não tinha olho de câmera fotográfica. Ele tinha um arquivo de figuras, e o arquivo só funciona quando a posição se parece com xadrez jogado.

Memória de enxadrista vale para posição de partida; com as peças jogadas ao acaso, o mestre lembra quase tão pouco quanto o iniciante.

COMO TROCAR A LISTA PELO BLOCO

Três passos mudam o modo de olhar o tabuleiro antes de jogar:

1. Comece pelos dois reis e pelas peças em volta deles, como uma figura só.

2. Leia a estrutura de peões no centro e diga em voz baixa qual abertura ela lembra.

3. Procure a peça que não entrou em nenhum bloco e pergunte para onde ela aponta.

Na posição de hoje, o passo 3 encontra o bispo de c1 e a casa g5 antes que o lance escape.

 

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III  O Padrão que Se Repete

O arquivo que leva dez anos

O padrão que se repete do teste de De Groot até os estudos seguintes é o tamanho do arquivo. O mestre guarda tanta figura porque passou muitos anos olhando posições.

Herbert Simon e Kevin Gilmartin, num artigo de 1973 da Cognitive Psychology, estimaram esse arquivo entre 10 mil e 100 mil figuras para um mestre de xadrez. Na mesma época, Simon e Chase calcularam que chegar ao nível de mestre pede cerca de dez anos de estudo intenso.

O BLOCO QUE CRESCE

Com o tempo, a figura aumenta. O iniciante guarda o roque como rei e torre. O jogador de clube guarda rei, torre e três peões. O mestre guarda o roque com o cavalo de f3, o bispo de c4 e o peão de c3, a Italiana inteira num bloco só.

Em 1996, Fernand Gobet e Herbert Simon chamaram esses blocos grandes de moldes (templates, no original em inglês). O molde tem partes fixas e algumas casas em aberto, onde cabe a peça que varia de partida para partida.

O LANCE QUE VEM JUNTO

A figura guardada traz o lance junto. Quando o mestre reconhece a Italiana com roques dos dois lados, a ideia do 7.Te1 e do avanço d4 aparece antes de qualquer cálculo.

Daí a observação de De Groot sobre os primeiros segundos. O mestre não pensa mais rápido; ele chega à posição com metade do trabalho feito, porque o arquivo entrega a figura e o plano ao mesmo tempo.

Treinar xadrez é encher o arquivo: cada partida estudada deixa figuras prontas para o próximo tabuleiro.

O TESTE EM CASA

O teste de 1946 não pede laboratório. Um tabuleiro, um relógio e uma partida de mestre bastam para medir o seu arquivo hoje e repetir a medida daqui a três meses.

Escolha uma posição do lance 15 de uma partida comentada, olhe por cinco segundos e monte num segundo tabuleiro. Conte as peças certas e anote o número.

Quantas das 32 peças do diagrama de hoje você consegue repor de cabeça?

Depois de montar a posição de memória, confira:

• quantas peças você pôs na casa certa, de 32;

• se os dois roques saíram completos, com rei, torre e três peões;

• se o bispo de c1 voltou para c1.

 
 
Quiz da edição

No teste de Chase e Simon (1973), repetindo o experimento de De Groot com posições de partidas reais, quantas peças o mestre do estudo conseguiu recolocar certas já na primeira tentativa?

A7 peças
B25 peças
C16 peças
D4 peças

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Maratona dos 7 dias finais

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Dia 4 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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