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As duas peças que Evans deu para não perder

Evans coloca a dama em g8 e a torre em g7, o rei preto engole as duas, fica sem lance legal e a partida perdida acaba empatada.

Rei preto em g7 sem casa de saída depois de capturar dama e torre.

Evans x Reshevsky, Nova York 1963, após 50...Rxg7

 

Z ero em oito. Foi o placar de casas que sobrou ao rei preto depois de aceitar duas peças de graça: das oito casas vizinhas, nenhuma podia recebê-lo, e sem nenhuma outra peça capaz de se mexer, o lado que estava ganhando saiu da mesa com meio ponto.

O nome da regra é afogamento, o empate por falta de lance legal: quando chega a sua vez, o rei não está atacado e ainda assim não existe um único movimento permitido no tabuleiro inteiro, a partida acaba empatada na hora, sem contar quem tem mais material. Um lado pode ter dama, torre e peões a mais e mesmo assim dividir o ponto.

A cena aconteceu em Nova York, em 1963, no campeonato dos Estados Unidos. Larry Evans jogava de brancas e estava perdido. Em vez de arrastar a derrota, ele colocou a dama em g8, ao alcance do rei preto, e no lance seguinte colocou a torre em g7, ao alcance do mesmo rei.

As duas ofertas pareciam presentes. As duas eram xeque, o que retirava do adversário o direito de recusar com calma: rei atacado precisa sair, bloquear ou capturar, e nas duas vezes capturar era o único caminho aberto.

Depois da segunda captura, o rei preto estava numa casa cercada por peões brancos travados e por peças que cobriam cada saída. O restante do exército preto não tinha para onde ir. A vez passou para as pretas e não havia lance a fazer.

O jogador que executou a manobra tinha trinta e um anos e já havia sido campeão nacional. O adversário, um dos maiores nomes do xadrez americano, passou o resto da vida respondendo perguntas sobre esse meio ponto.

A posição do diagrama de hoje congela o instante seguinte à segunda captura, com as pretas na vez e com material a mais no tabuleiro.

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I  A Posição do Dia

O rei que ficou sem casa em g7

A partida saiu do campeonato dos Estados Unidos de 1963, disputado em Nova York, com Larry Evans conduzindo as brancas e Samuel Reshevsky as pretas. O torneio entrou para a história por outro motivo: Bobby Fischer venceu as onze partidas que jogou e terminou sem ceder meio ponto a ninguém.

Evans tinha vinte e nove anos quando ganhou o primeiro título nacional e já era nome grande do circuito americano quando sentou diante de Reshevsky. Reshevsky vinha de outra escala: criança prodígio que fazia exibições simultâneas na Europa antes dos dez anos, disputou o torneio pelo título mundial de 1948 e passou décadas como o enxadrista americano mais forte em atividade.

Naquela partida, Reshevsky estava com a vitória na mão. A conta de material favorecia as pretas com folga, e qualquer motor de análise de hoje apontaria o resultado em dois segundos. Evans tinha duas escolhas: entregar o ponto ou procurar a única saída que não dependia de acertar um lance, e sim de tirar do adversário a possibilidade de jogar.

A manobra tem dois lances: a dama branca entra em g8 dando xeque, o rei preto captura porque não tem alternativa legal, e então a torre branca entra em g7 dando xeque de novo, com o mesmo rei obrigado a comer a segunda peça.

Depois de engolir dama e torre, o rei preto parou em g7 sem nenhuma casa de saída. As casas da frente estavam ocupadas ou vigiadas por peões brancos travados, as casas de trás pertenciam a peças da própria posição, e nenhuma outra peça preta conseguia mexer um milímetro. Nem xeque havia. Faltava simplesmente lance.

Pelas regras da Federação Internacional de Xadrez, a FIDE, essa situação encerra a partida em empate imediato. Cada lado leva meio ponto e a diferença de material vai para o lixo. A regra não é moderna nem obscura: ela vale em toda partida oficial e vale igual numa partida de dez minutos no celular.

A imprensa enxadrística americana da época batizou o final de golpe do século, no sentido de trapaça legal, a jogada que salva o insalvável dentro das regras. O apelido pegou e a posição virou material obrigatório em livro de finais.

Vale montar as peças no seu tabuleiro e testar cada recusa possível para as pretas. Se o rei não capturar a dama em g8, é xeque sem escapatória; se capturar e depois recusar a torre em g7, também não existe casa. O exercício mostra que o afogamento não foi sorte de Evans, e sim um funil montado lance a lance.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Capturar tudo o que se oferece no fim

O erro mais jogado nesta família de posições é continuar capturando por reflexo quando já se está ganhando: cada peça inimiga engolida no fim reduz o número de lances que o adversário ainda pode fazer, e quem tira do outro o último lance legal transforma vitória em empate.

A origem do erro está no treino de abertura e de meio-jogo. Durante quase toda a partida, comer material é a decisão certa, o placar de pontos responde rápido e quem hesita perde vantagem. O final inverte a lógica: com poucas peças no tabuleiro, o alvo deixa de ser o material e passa a ser o número de casas que restam ao rei adversário.

A COMO TESTAR UMA CAPTURA QUANDO VOCÊ JÁ ESTÁ GANHANDO

1. Antes de comer, conte quantos lances legais o adversário vai ter depois da sua captura. Some as casas livres do rei dele e os movimentos das outras peças dele. Se o total chegar a zero e ele não estiver em xeque, a captura entrega empate.

2. Olhe os peões dele. Peão travado por peão da mesma coluna não anda, peão sem casa de captura ao lado não anda, e peão parado não conta como lance disponível. Posição em que só o rei do adversário pode se mexer é terreno de afogamento.

3. Procure a alternativa de um lance de espera. Quase sempre existe um lance de rei ou de peão que mantém a vantagem inteira e devolve ao adversário uma casa livre. Meio ponto a mais no torneio vale mais do que a peça que você deixou de comer.

Existe uma segunda versão do erro, que aparece do lado de quem está perdendo. O jogador em posição ruim entrega os pontos antes de procurar o funil, abandona no lance quarenta e sete e descobre no computador, em casa, que o empate estava disponível no quarenta e nove. Quem abandona cedo nunca vê a posição que salvaria a partida.

A terceira versão acontece no relógio. Com poucos segundos, o lado vencedor captura no automático porque capturar é o gesto que exige menos cálculo. Funil montado pelo adversário funciona melhor exatamente aí, e por isso a manobra de Evans costuma aparecer em partida rápida bem mais do que em partida clássica.

O antídoto cabe numa pergunta feita antes de cada captura em posição ganha: depois que eu comer, quantos lances sobram para ele. Quem faz essa conta uma vez por final para de perder pontos que já estavam no bolso.

 

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III  O Padrão que Se Repete

Quando o empate mora no rei encurralado

O mecanismo é o sacrifício de afogamento, o lance que oferece material justamente para apagar as opções do adversário. Um lado entrega peça sob xeque, o outro é obrigado a aceitar porque xeque não admite recusa tranquila, e a cada aceitação o tabuleiro do vencedor fica mais vazio de possibilidades.

"A partida mais difícil de ganhar é a partida ganha."

Emanuel Lasker, Lasker's Manual of Chess, 1925.

Lasker escreveu a frase pensando na queda de atenção que atinge quem já se vê com o ponto garantido, e o final de Nova York mostra a forma mais cara desse descuido. O lado que estava ganhando não cometeu erro de cálculo em nenhum lance isolado: cumpriu a obrigação do xeque duas vezes e chegou ao empate cumprindo as regras.

O padrão se reconhece por três sinais na posição.

1. O rei que está ganhando perdeu mobilidade, ou o rei que está perdendo está numa quina com peões travados na frente. Rei encostado na borda com peões próprios imóveis é a matéria-prima do afogamento.

2. O lado perdedor tem uma peça pesada que pode entrar dando xeque em casa vizinha ao rei adversário, de preferência protegida por nada. Peça que só pode ser capturada pelo rei, e não por outra peça, é o instrumento exato dessa armadilha.

3. O lado vencedor tem poucas peças móveis fora o rei. Quando sobra só rei e peões travados, o número de lances legais fica pequeno e qualquer captura forçada pode zerar a conta.

O mesmo desenho reaparece em outras famílias. Nos finais de dama contra peão na sétima fila, o lado fraco empata empurrando o rei para uma quina em que a dama adversária, ao dar xeque, deixa o rei sem casa. Na defesa de torre contra torre e peão, o truque de Philidor tem um primo afogador, com a torre se oferecendo repetidas vezes na coluna em que o rei do adversário não pode recusar.

Larry Evans viveu de 1932 a 2010, ganhou cinco vezes o campeonato dos Estados Unidos, ajudou Bobby Fischer na preparação do título mundial de 1972 e escreveu por décadas uma coluna de perguntas e respostas na revista Chess Life. Samuel Reshevsky seguiu competindo até os oitenta anos e morreu em 1992 sem ter disputado um encontro pelo título mundial.

Existe um detalhe de comportamento que a planilha não registra. O empate foi marcado sem discussão na mesa, porque o afogamento encerra a partida sozinho, sem depender da concordância de ninguém: não há proposta, não há aperto de mão, não há direito de continuar jogando. O árbitro registra e a rodada segue.

E se o caminho mais curto para salvar uma partida perdida for entregar as suas peças mais valiosas?

Confira na sua próxima partida com o tabuleiro montado:
quantas casas livres restam ao rei adversário depois da captura que você quer fazer;
quantos peões dele estão travados e não contam como lance disponível;
se existe um lance de espera que mantém a vantagem sem tirar o último movimento do outro.

 
 
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Quiz da edição

No Campeonato dos Estados Unidos de 1963, mesmo torneio da partida Evans x Reshevsky, quantas partidas Bobby Fischer venceu sem ceder nem meio ponto a ninguém?

A9
B11
C13
D7

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