|
O mecanismo é o sacrifício de afogamento, o lance que oferece material justamente para apagar as opções do adversário. Um lado entrega peça sob xeque, o outro é obrigado a aceitar porque xeque não admite recusa tranquila, e a cada aceitação o tabuleiro do vencedor fica mais vazio de possibilidades.
|
"A partida mais difícil de ganhar é a partida ganha."
Emanuel Lasker, Lasker's Manual of Chess, 1925.
|
Lasker escreveu a frase pensando na queda de atenção que atinge quem já se vê com o ponto garantido, e o final de Nova York mostra a forma mais cara desse descuido. O lado que estava ganhando não cometeu erro de cálculo em nenhum lance isolado: cumpriu a obrigação do xeque duas vezes e chegou ao empate cumprindo as regras. O padrão se reconhece por três sinais na posição. 1. O rei que está ganhando perdeu mobilidade, ou o rei que está perdendo está numa quina com peões travados na frente. Rei encostado na borda com peões próprios imóveis é a matéria-prima do afogamento. 2. O lado perdedor tem uma peça pesada que pode entrar dando xeque em casa vizinha ao rei adversário, de preferência protegida por nada. Peça que só pode ser capturada pelo rei, e não por outra peça, é o instrumento exato dessa armadilha. 3. O lado vencedor tem poucas peças móveis fora o rei. Quando sobra só rei e peões travados, o número de lances legais fica pequeno e qualquer captura forçada pode zerar a conta. O mesmo desenho reaparece em outras famílias. Nos finais de dama contra peão na sétima fila, o lado fraco empata empurrando o rei para uma quina em que a dama adversária, ao dar xeque, deixa o rei sem casa. Na defesa de torre contra torre e peão, o truque de Philidor tem um primo afogador, com a torre se oferecendo repetidas vezes na coluna em que o rei do adversário não pode recusar. Larry Evans viveu de 1932 a 2010, ganhou cinco vezes o campeonato dos Estados Unidos, ajudou Bobby Fischer na preparação do título mundial de 1972 e escreveu por décadas uma coluna de perguntas e respostas na revista Chess Life. Samuel Reshevsky seguiu competindo até os oitenta anos e morreu em 1992 sem ter disputado um encontro pelo título mundial. Existe um detalhe de comportamento que a planilha não registra. O empate foi marcado sem discussão na mesa, porque o afogamento encerra a partida sozinho, sem depender da concordância de ninguém: não há proposta, não há aperto de mão, não há direito de continuar jogando. O árbitro registra e a rodada segue. E se o caminho mais curto para salvar uma partida perdida for entregar as suas peças mais valiosas?
Confira na sua próxima partida com o tabuleiro montado: quantas casas livres restam ao rei adversário depois da captura que você quer fazer; quantos peões dele estão travados e não contam como lance disponível; se existe um lance de espera que mantém a vantagem sem tirar o último movimento do outro.
|