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As 64 casas que Philipp Stamma batizou em 1737

Um sírio em Paris publica 100 posições com letra e número em cada casa, e o jeito de escrever xadrez muda para sempre.

Diagrama: dama branca em d5 e cavalo em h6 contra o rei preto encurralado em h8.

Brancas jogam e dão mate em 2 lances

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U ma em 35. Era a chance de achar no chute o lance que resolve a posição desta edição: as brancas têm 35 lances legais, e só um deles dá mate em 2.

Num livro de xadrez de Paris em 1737, a chance de o leitor sequer entender a solução era menor. Quase todo autor da época escrevia os lances por extenso, em frases como "o peão do rei avança duas casas" ou "o cavalo do bispo da dama vai à terceira casa do bispo".

Cada peça era batizada pela peça ao lado da qual começava. Cada casa era batizada pela peça que a ocupava no início da partida, contada do lado de quem jogava. A mesma casa tinha dois nomes, um para as brancas e outro para as pretas.

Philipp Stamma, um jogador nascido em Alepo, na Síria, achou um atalho. No Essai sur le jeu des échecs (Ensaio sobre o jogo de xadrez), publicado em Paris em 1737, ele deu às colunas as letras de a até h e às fileiras os números de 1 a 8.

Com a troca, cada casa ganhou um endereço único, igual para os dois lados: e4 é e4 para quem joga de brancas e para quem joga de pretas. Um lance cabia em poucos caracteres, e o leitor achava a casa no tabuleiro sem traduzir frase nenhuma.

O livro trazia 100 posições, quase todas de ataque ao rei, com solução forçada. O formato pedia do leitor um hábito que a notação nova facilitava: olhar o tabuleiro, nomear a casa que decide e só depois calcular o caminho até ela.

A posição da seção I segue esse molde. Tem poucas peças, as pretas ameaçam xeque na primeira fileira, e a solução começa pela casa que o leitor precisa nomear antes de mexer qualquer peça.

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I  A Posição do Dia

A dama que se entrega em g8

A posição desta edição foi montada no molde das 100 de Philipp Stamma: poucas peças, rei preto encurralado no canto e um lance que parece absurdo à primeira vista.

As brancas têm rei em g1, dama em d5, cavalo em h6 e peões em g2 e h2. As pretas têm rei em h8, torre em c8, dama em b2 e peões em g7 e h7. As brancas jogam.

Antes de calcular, nomeie as casas em volta do rei preto. O rei está em h8. As casas vizinhas são g8, h7 e g7, e duas delas estão ocupadas pelos próprios peões pretos.

Sobra g8. É a única casa de fuga do rei, e ela está vigiada duas vezes: pela dama de d5, na diagonal que passa por e6 e f7, e pelo cavalo de h6.

Quando a única casa livre ao lado do rei está vigiada, o lance certo costuma ser ocupar essa casa com a peça que o adversário é obrigado a capturar.

A solução tem 2 lances das brancas, e cada passo se confere no tabuleiro:

1. Dg8+ (D é a dama). A dama se entrega em g8 e dá xeque. O rei não pode capturar, porque o cavalo de h6 protege g8.

2. Txg8 é a única resposta das pretas. A torre de c8 corre pela oitava fileira e captura a dama, e agora g8 está ocupada por uma peça preta.

3. Cf7# (C é o cavalo, # é mate). O cavalo salta de h6 para f7 e dá xeque. O rei não tem casa: g8 tem a torre, g7 e h7 têm os peões.

Os enxadristas chamam esse desenho de mate sufocado: o rei fica preso pelas próprias peças, e o cavalo, a única peça que salta por cima das outras, dá o xeque final.

A notação de Stamma deixa a solução curta no papel. Na escrita por extenso da época, o lance 1.Dg8+ viraria algo como "a dama vai à casa do cavalo do rei adversário, dando xeque", e o leitor ainda teria de descobrir de qual lado a frase contava as casas.

Por que o lance funciona tão rápido? Porque g8 era, ao mesmo tempo, a única saída do rei e a casa que a torre preta podia alcançar. A dama transforma a fuga em armadilha.

As pretas não têm alternativa ao 1...Txg8. A dama de b2 não alcança g8, e nenhuma peça preta pode se meter entre d5 e g8 depois do xeque.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

O xeque na casa errada

O erro mais jogado nesta posição é dar o primeiro xeque que aparece, sem nomear antes a casa que decide.

O lance que mais tenta é 1.Dd8+. A dama chega à oitava fileira com xeque e lembra o sacrifício da solução. A diferença aparece logo: a torre de c8 captura em d8, e g8 continua vazia.

Depois de 1.Dd8+ Txd8, as brancas ainda têm 2.Cf7+, mas o rei vai para g8 e o cavalo só consegue capturar a torre em d8. As brancas entregaram a dama por uma torre, e a dama preta de b2 segue viva.

A diferença entre d8 e g8 é uma casa só. Quem calcula antes de nomear vê dois xeques de dama parecidos. Quem nomeia antes vê que só g8 fica ocupada pela torre depois da captura, e só uma torre em g8 tira a última fuga do rei.

O segundo erro é o xeque de cavalo logo de cara, 1.Cf7+. Ele não perde, mas atrasa. Depois de 1...Rg8, as brancas precisam enxergar 2.Ch6+, xeque duplo do cavalo e da dama.

Se o rei volta para h8, vem 3.Dg8+ Txg8 4.Cf7#. Se o rei vai para f8, vem 3.Df7#. A vitória chega em 4 lances em vez de 2, e qualquer conta errada no meio dá às pretas a chance de usar a dama de b2.

O terceiro erro é a pressa de defender. As pretas ameaçam Tc1+, e o lance 1.h3 abre uma casa de fuga para o rei branco. É defesa honesta, mas devolve a vez às pretas, que podem trazer a torre de volta para proteger a oitava fileira.

ANTES DE DAR XEQUE COM A DAMA

1. Liste as casas vizinhas ao rei adversário e marque quais estão livres.

2. Veja quais peças inimigas podem capturar na casa do xeque.

3. Pergunte o que fica naquela casa depois da captura e se o rei ainda respira.

O livro de Philipp Stamma foi feito para treinar justamente essa conferência. Na edição inglesa do livro, The Noble Game of Chess, publicada em Londres em 1745, ele manteve as soluções com a notação de letras e números para que o leitor conferisse casa por casa.

 

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III  O Padrão que Se Repete

De Alepo à súmula de hoje

O padrão que a posição revela atravessa os séculos: quem escreve as casas pelo endereço enxerga a casa que decide antes de enxergar a peça que se move.

A história de Philipp Stamma fica menos clara do que a do livro. Ele nasceu em Alepo, no começo do século XVIII, e já vivia em Paris em 1737. Os registros conhecidos não explicam o motivo da mudança.

Em Londres, trabalhou como intérprete de línguas orientais para o governo britânico. Em 1747, enfrentou o francês François-André Danican Philidor num match no Slaughter's Coffee House, um café de jogadores da cidade.

Stamma jogou com vantagens combinadas antes do match: saía com as brancas em todas as partidas e cada empate contava a favor dele. Philidor venceu por 8 a 2 e virou a maior referência do jogo na Europa.

Philidor resumiu a visão dele de jogo numa frase que o xadrez repete até hoje.

“Os peões são a alma do xadrez.” (François-André Danican Philidor, Analyse du jeu des échecs, 1749)

Stamma era o oposto: o livro dele era sobre ataque direto ao rei, com peças sacrificadas e soluções curtas. Ele perdeu o match, mas o jeito de escrever as casas sobreviveu a Philidor, que seguiu com a escrita por extenso.

Philipp Stamma perdeu no tabuleiro para Philidor em 1747, mas a escrita das 64 casas que ele publicou em 1737 é a que os torneios usam até hoje.

A notação algébrica (o sistema de letra para a coluna e número para a fileira) demorou a ganhar a Europa. O alemão Johann Allgaier a usou no manual que publicou em Viena em 1795, e o modelo se espalhou pelos países de língua alemã no século XIX.

Os países de língua inglesa e espanhola seguiram por mais de 150 anos com a notação descritiva, a escrita por nome de peça. A FIDE (Federação Internacional de Xadrez) adotou a algébrica como padrão oficial em 1981.

Stamma morreu em Londres em 1755. Os registros conhecidos não dizem se ele chegou a ver alguém fora do círculo dele usar o sistema que publicou. O livro dele seguiu em reedições, e as 100 posições continuam circulando.

Hoje, toda súmula de torneio, todo arquivo PGN (o formato de texto que guarda partidas no computador) e todo diagrama de jornal usam o endereço que Stamma deu a cada casa.

Diante de uma posição de ataque, você nomeia primeiro a casa de fuga do rei ou procura primeiro o xeque mais forte?

Confira no diagrama, com um tabuleiro na mão:

• quantas casas vizinhas ao rei preto estão livres na posição inicial;

• quais peças brancas vigiam g8;

• qual peça preta ocupa g8 depois de 1...Txg8.

 
 
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No match de 1747 entre Philipp Stamma e François-André Danican Philidor no Slaughter's Coffee House, qual foi o placar final?

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C8 a 2 para Philidor
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