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A vitória de 517 lances na base de 7 peças

Em Moscou, 2012, o supercomputador Lomonosov fecha os finais de sete peças. A tabela marca vitória, o torneio marca empate.

Diagrama: dama e cavalo contra torre, bispo e cavalo

Base de Lomonosov, Moscou 2012

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Uma chance em 517. Era o tamanho da porta do defensor numa posição calculada em Moscou em 2012: o atacante precisava acertar 517 lances seguidos antes da primeira troca, e um único desvio do caminho exato devolvia o empate a quem defendia.

A posição saiu de um supercomputador. Vladimir Makhnychev e Victor Zakharov, pesquisadores da Universidade Estatal de Moscou, terminaram em 2012 a primeira base completa de finais com sete peças (o arquivo que guarda o resultado perfeito de cada posição possível com sete peças no tabuleiro, reis incluídos).

A máquina leva o sobrenome de Mikhail Lomonosov, o químico russo do século 18 que fundou a universidade. O supercomputador Lomonosov rodou o cálculo inteiro dentro do campus, e a base ficou conhecida pelo sobrenome da máquina.

O arquivo final ocupa cerca de 140 terabytes, segundo os próprios autores na divulgação de 2012 (um terabyte guarda mil gigabytes). Nenhum computador doméstico daquele ano carregava o arquivo inteiro; quem queria consultar uma posição mandava a pergunta pela internet, e o servidor de Moscou devolvia a resposta.

O cálculo trouxe uma surpresa para quem achava conhecer os finais. Apareceram ganhos forçados de mais de 500 lances, sem atalho e sem plano que um mestre consiga contar em palavras. Num deles, com dama e cavalo contra torre, bispo e cavalo, as brancas vencem, mas só chegam à primeira captura depois de 517 lances perfeitos.

No tabuleiro de torneio, essa vitória não vale. O prazo de 50 lances sem captura nem lance de peão encerra a partida muito antes, e o resultado oficial sai empate, mesmo com a tabela marcando vitória.

Nas jogadas citadas, D é dama, T é torre, B é bispo, C é cavalo e R é rei.

A Posição do Dia abre a base de Lomonosov por dentro: como a máquina chegou ao resultado e por que a vitória de 517 lances aparece nela.

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I  A Posição do Dia

O cálculo que anda para trás

A base de Lomonosov não joga partidas. Ela usa a análise retrógrada (o cálculo que parte das posições de mate e caminha para trás, lance a lance, até cobrir todas as posições possíveis).

O primeiro passo marca todas as posições em que um rei já está em mate. O segundo marca as posições de onde sai um mate em um lance. O terceiro, as de mate em dois, e assim por diante, até a máquina não achar mais nenhuma posição nova.

O QUE A MÁQUINA GUARDA

Para cada posição, o arquivo anota três respostas: quem vence, se alguém vence, e em quantos lances. O número de lances é a distância até o mate com jogo perfeito dos dois lados, e o defensor, na conta da máquina, sempre escolhe a resistência mais longa.

Makhnychev e Zakharov deixaram de fora um grupo de posições: as de seis peças contra o rei sozinho. Nesses casos a vitória é tão óbvia que a equipe não gastou memória com elas, e o arquivo ficou só com os finais em que o resultado pede cálculo.

A POSIÇÃO DOS 517 LANCES

O hero desta edição monta um final desse grupo: rei, dama e cavalo das brancas contra rei, torre, bispo e cavalo das pretas. Na contagem de pontos dos manuais, a dama vale nove, a torre cinco, o bispo e o cavalo três cada; o material quase empata.

A máquina mostra outro retrato. Com as brancas jogando, existe um caminho forçado para a vitória, mas ele passa por 517 lances antes da primeira captura. Até ali, cada lance branco precisa ser o único bom, e as peças pretas trocam de casa em defesas que nenhum humano escolheria.

Na tabela, a vitória de 517 lances existe; no tabuleiro de torneio, o prazo de 50 lances apaga a vitória muito antes.

POR QUE NINGUÉM EXPLICA A MANOBRA

Os mestres que estudaram as linhas longas da base descrevem lances sem plano visível. A dama passeia pelo tabuleiro, o cavalo volta para a casa de onde saiu, e só centenas de lances depois a posição das pretas cede.

O caminho não tem desenho para decorar, como acontece nos finais clássicos. Ele vale só para aquela posição exata: basta mudar uma peça de casa e o número de lances muda, ou a vitória some.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Confiar na avaliação da tela

O erro mais jogado com as bases de finais é ler a palavra vitória na tela e esquecer o relógio de lances do torneio. O programa de análise mostra que as brancas ganham, e o jogador sai do estudo acreditando que aquele final se ganha na prática.

A base de Lomonosov conta a distância até o mate sem prazo nenhum. Ela não sabe que a partida acaba em empate quando 50 lances passam sem captura nem lance de peão, e assim marca vitória em posições que nenhum árbitro aceitaria como ganhas.

A VITÓRIA AMALDIÇOADA

Outra família de bases resolveu o problema. As tabelas Syzygy, criadas pelo programador holandês Ronald de Man, contam a distância até a próxima captura ou lance de peão, e não até o mate. Em 2018, o pesquisador chinês Bojun Guo terminou a versão de sete peças dessas tabelas.

Com essa contagem, a Syzygy separa dois tipos de vitória. A vitória comum chega à captura dentro dos 50 lances. A vitória amaldiçoada (o termo em inglês é cursed win) existe no cálculo puro, mas estoura o prazo e vira empate pela regra.

O final dos 517 lances é amaldiçoado. A Syzygy marca empate pela regra, e a Lomonosov marca vitória. As duas estão certas, cada uma respondendo a uma pergunta diferente.

O QUE O DEFENSOR GANHA

Para quem defende, a diferença é a partida. Num final em que a tabela de mate diz derrota, a tabela com prazo pode dizer empate, e o defensor que abandona a partida joga fora meio ponto que o regulamento já garantia.

Os programas de xadrez que jogam torneios entre si usam a Syzygy pela razão prática: eles precisam do resultado que vale no torneio, e não do resultado da matemática sem relógio.

COMO LER A TELA SEM ERRAR

Antes de concluir que um final é ganho, três passos protegem o estudo:

1. Veja se a base consultada conta até o mate ou até a captura.

2. Procure a marca de vitória amaldiçoada ou de empate pela regra.

3. Conte quantos lances sem captura a partida já tem no placar.

Se a base conta até o mate e não mostra o prazo, a vitória da tela ainda pode ser empate no tabuleiro.

 

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III  O Padrão que Se Repete

Cada peça a mais, um caminho mais longo

O padrão que se repete na história das bases é o crescimento das vitórias longas a cada peça acrescentada. Com cinco peças, os caminhos mais longos já assustavam os analistas; com seis, cresceram; com sete, passaram de 500.

Cada peça a mais multiplica as posições possíveis. A base de seis peças cabia em cerca de 1,2 terabyte; a de sete exigiu um supercomputador e cerca de 140 terabytes, segundo a equipe de Moscou em 2012.

O LANCE MAIS LONGO DE TODOS

Na base de Lomonosov, o recorde ficou com um final de sete peças em que o mate leva 549 lances com jogo perfeito, número divulgado pela equipe de Makhnychev e Zakharov. Nenhum livro de finais trazia algo parecido antes de 2012.

O recorde mostra a distância entre o cálculo e o jogo humano. Um enxadrista de torneio pensa em planos de dez ou vinte lances; o caminho de 549 lances não cabe em plano nenhum, e só a máquina segue a trilha inteira.

A base também corrigiu manuais. Finais que os livros davam como empate apareceram ganhos, e finais tidos como ganhos mostraram defesas escondidas. Os autores de estudos (composições de xadrez com solução única) passaram a conferir cada obra nova na base antes de publicar, porque a máquina encontra a segunda solução que derruba o estudo.

O QUE SE SABE DAS OITO PEÇAS

A base de oito peças ainda não existe completa. Os autores das bases de sete peças estimaram que ela pediria muitas vezes mais memória, e até agora só partes dela foram calculadas por grupos isolados.

Sem a base inteira, não se sabe qual será a vitória mais longa com oito peças. A tendência das bases menores sugere caminhos ainda maiores, mas a resposta só sai quando o cálculo terminar, e ninguém publicou essa data.

A LIÇÃO PARA O TABULEIRO

Para o jogador de carne e osso, as bases servem de mapa, e não de manual. Elas dizem quais finais são ganhos dentro do prazo, quais são empate e quais só vencem na matemática sem relógio.

Quem estuda um final com sete peças ou menos pode perguntar à base e receber a resposta exata. O trabalho humano fica em saber qual pergunta fazer: vitória até o mate ou vitória dentro do prazo do torneio.

Se a tela mostrar vitória no seu próximo final de estudo, você sabe qual das duas contagens ela usou?

Abra uma base de finais e confira sozinho:

• o tipo de contagem, até o mate ou até a captura;

• a marca de vitória amaldiçoada, se aparecer;

• o número de lances sem captura no placar da partida.

 
 
Quiz da edição

No final com dama e cavalo das brancas contra torre, bispo e cavalo das pretas, calculado pela base de Lomonosov, quantos lances o atacante precisa acertar antes da primeira captura, no caminho forçado de vitória?

A50 lances
B549 lances
C140 lances
D517 lances

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