|
O princípio por trás do arranjo é a defesa ativa, o modo de defender criando ameaças, sem se limitar a tapar buracos. A torre em f6 não protege nada: ela ataca o peão e ameaça xeques, e as duas ameaças juntas ocupam o tempo das brancas por completo. Quem defende atacando gasta os lances do adversário e não os próprios.
|
"A torre fica atrás do peão passado, seja ele seu ou do inimigo."
Siegbert Tarrasch, Das Schachspiel, 1931.
|
Tarrasch escreveu a frase como orientação geral, e ela continua correta na esmagadora maioria dos finais de torre. O estudo tcheco de 1924 marca a exceção da borda: quando o peão passado é de torre e já chegou à sexta fila, o lugar da torre defensora sai da coluna e vai para a fila. O padrão se reconhece por três sinais na posição. 1. O peão passado está na coluna a ou na coluna h e já passou da metade do tabuleiro. Peão de borda adiantado é o gatilho: fora da borda, a defesa lateral costuma falhar porque o rei atacante tem espaço dos dois lados para fugir dos xeques. 2. A torre do lado atacante está parada na casa de promoção, à frente do próprio peão. Torre na frente do peão é torre com futuro ruim, e o defensor que enxerga essa peça travada sabe que tem material para empatar mesmo com uma unidade a menos. 3. O rei defensor consegue alcançar o canto oposto ao peão em poucos lances. Sem esse abrigo, os xeques laterais da torre atacante forçam o rei defensor a andar e a defesa cai por falta de tempo. O mesmo desenho reaparece em outras famílias de final. Na defesa da terceira fila, que leva o nome de François-André Danican Philidor, o defensor segura a torre na fila à frente do peão adversário até o peão avançar, e só então recua para dar xeques pelas costas. Nos finais de dama contra torre e peão, o lado fraco usa o truque parecido de manter a torre longe o bastante para que a dama não a ataque e dê xeque no mesmo lance. Josef Vančura publicou pouco em vida, pouco mais de uma centena de composições entre problemas e estudos, e o nome dele sobreviveu por causa de uma posição de seis peças. A tuberculose que o levou aos vinte e três anos era doença corrente entre jovens adultos na Europa central dos anos 1920, e não existe registro de que ele tenha disputado torneio forte. Existe um detalhe de aplicação que os manuais escondem no rodapé. O arranjo lateral funciona igual com as cores trocadas e nas duas bordas: com o peão em h6 e a torre do atacante em h8, a casa espelhada passa a ser c6. Decorar a letra não ajuda; entender que a torre defensora quer fila, e não coluna, resolve as quatro versões do quadro. E se a peça mais útil da sua defesa for justamente a que não está protegendo nada?
Confira na sua próxima partida com o tabuleiro montado: em que fila está o peão passado do adversário antes de você recuar a torre; quantas colunas separam a sua torre do rei que vem se aproximando; se o seu rei alcança o canto oposto ao peão em três lances ou menos.
|