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A torre em f2 e a coroa de Gukesh aos 18 anos
Singapura, 2024: Ding Liren troca as torres num final empatado, e o final de peões entrega o título mundial a Gukesh.
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Ding Liren x Gukesh, Singapura, 2024
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N ove em treze. Das treze partidas do match de Singapura, nove tinham terminado empatadas antes da última, e a décima quarta seguia para virar a décima. Com o placar em 6,5 a 6,5, mais um empate levava a decisão para as partidas rápidas do dia seguinte, e Ding Liren, com as brancas, parecia contente com esse destino. A final do Campeonato Mundial de 2024 reunia o campeão Ding Liren, chinês de 32 anos, e o desafiante Gukesh Dommaraju, indiano de Chennai, com 18. Gukesh tinha vencido o Torneio de Candidatos em Toronto, em abril, e chegou a Singapura como o desafiante mais jovem que um match pelo título já teve. O match foi disputado no complexo Resorts World Sentosa, entre novembro e dezembro. Ding venceu a primeira partida, Gukesh respondeu na terceira, e as vitórias seguintes vieram uma de cada lado, na décima primeira e na décima segunda. O resto foi empate. A última partida clássica foi jogada em 12 de dezembro de 2024. Ding abriu com 1.Cf3, a Abertura Réti, e as peças foram saindo do tabuleiro sem grande drama. As damas saíram no lance 30, e depois do lance 46 restavam torre e bispo para cada lado, com um peão branco contra dois pretos. Gukesh tinha um peão a mais, e todos os peões estavam no mesmo flanco (a metade do tabuleiro onde as peças ficaram, aqui a ala do rei). Com torres ainda em jogo, os livros de finais tratam esse tipo de posição como empate, porque a torre de quem defende incomoda o rei atacante de longe. Gukesh seguiu manobrando por quase dez lances, trocando a casa do rei, da torre e do bispo em busca de uma fresta. Ding respondia com calma, sempre com a torre ativa e o bispo cobrindo as casas brancas. Depois do lance 54 das pretas, o rei de Gukesh chegou a e5, no centro. A primeira seção abaixo mostra a posição exata e o lance de torre que Ding escolheu. Continue lendo ↓
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I A Posição do Dia
A troca oferecida na coluna f
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Na posição antes do lance 55, Ding Liren tinha, com as brancas, rei em g1, torre em f4, bispo em a8 e um peão em g3. Gukesh Dommaraju tinha rei em e5, torre em b2, bispo em e6 e dois peões, em f5 e g4. A torre branca em f4 segurava o peão de f5 e impedia o rei preto de passar para a quarta fileira. A torre preta, na segunda fileira, pressionava o rei branco sem conseguir nada de concreto. Qualquer lance de torre que mantivesse a vigia na quarta fileira conservava o empate, segundo a análise dos motores publicada logo depois da partida. Ding jogou 55.Tf2. A torre recuou e se colocou na frente da torre preta, oferecendo a troca. Gukesh aceitou na hora: 55...Txf2 56.Rxf2. |
Sem as torres, o tabuleiro ficou com dois bispos de casas brancas, dois reis e três peões, e cada lance passou a ser contado sem margem para defesa.
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Gukesh respondeu com 56...Bd5, o bispo preto na grande diagonal que vai de a8 a h1. O lance atacou o bispo branco, preso no canto. O bispo de a8 só andava por essa diagonal, e o bispo preto em d5 bloqueava o caminho. As duas casas livres, b7 e c6, estavam na mira do bispo preto. Ding tinha uma saída sem perder peça: trocar. A sequência final cabe em três passos: 1.** 55.Tf2 Txf2 56.Rxf2. A troca de torres, oferecida pelas brancas e aceita pelas pretas, tira do tabuleiro a peça que segurava o empate. 2.** 56...Bd5 57.Bxd5 Rxd5. O bispo preto força a troca de bispos, e o rei preto retoma em d5, mais perto do centro que o rei branco. 3.** 58.Re3 Re5. Os reis ficam frente a frente na coluna e, com uma casa entre eles, e as brancas precisam mover. Qualquer lance de rei branco cede uma casa ao rei preto. Ding abandonou nessa posição, logo depois de 58...Re5. Se tivesse segurado o empate, a disputa iria para as partidas rápidas do dia seguinte, onde os dois chegariam com chances parecidas. Com o rei preto entrando pela casa que o branco deixasse, o peão de g3 cairia, e o peão de f5 teria caminho livre até a promoção (a chegada à última fileira, onde vira dama). A vitória fechou o match em 7,5 a 6,5. Gukesh, aos 18 anos, virou o campeão mundial mais jovem da história, título que pertencia a Garry Kasparov, campeão aos 22 contra Anatoly Karpov em 1985.
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II O Erro Mais Jogado
A simplificação que entrega o final
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O erro mais jogado em finais de torre com um peão a menos é trocar as torres para aliviar a pressão. Ding tirou do tabuleiro a única peça que ainda defendia a quarta fileira.
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Quem defende um final longo sente o peso de cada lance. Trocar peças parece reduzir o trabalho: menos peças, menos ameaças, menos cálculo. Em posições de peões no mesmo flanco, a sensação tem base, porque a vantagem de um peão costuma ser pouco para vencer. A conta muda quando saem as torres e ficam bispos da mesma cor. O bispo de quem ataca pode forçar a troca, como Gukesh fez com 56...Bd5, e a posição cai direto num final de peões. Nesse tipo de final, o empate some quando o rei adversário está mais ativo. Os comentaristas da transmissão oficial apontaram o erro assim que a torre chegou a f2. O cálculo que faltou tinha três lances de profundidade: troca de torres, troca de bispos e reis frente a frente. Havia alternativas simples. A torre podia ficar em f4 ou andar pela quarta fileira, sempre na frente do peão de f5. O rei branco podia esperar em g1 ou g2. Nenhuma dessas opções exigia criatividade, só a recusa de trocar. O segundo erro comum é o oposto. Quem aprende essa lição passa a recusar toda troca em final, mesmo quando o final de peões seguinte é empatado ou ganho. O critério certo passa pela conta do final de peões, feita antes da troca. ANTES DE TROCAR AS TORRES NUM FINAL DEFENSIVO 1.** Conte os lances da troca até a última captura forçada. Se o adversário pode obrigar outra troca logo depois, o final que importa é o seguinte, e ele deve ser calculado já. 2.** Veja onde ficam os reis depois das trocas. Rei adversário no centro e rei seu na primeira ou segunda fileira é sinal de final de peões perdido. 3.** Confira se o seu bispo tem casa de fuga na diagonal. Bispo preso num canto, como o de a8, aceita a troca por falta de escolha. Ding Liren, campeão desde 2023, entregou a coroa num lance de torre. A partida entrou nas coleções de finais como exemplo de simplificação errada no momento de maior pressão do esporte.
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