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A torre atrás do peão que derrubou Capablanca
Buenos Aires, 1927, final de torres com um peão de diferença, e uma casa só separa a vitória do empate no lance 54.
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A torre branca em a4, atrás do peão passado de a5
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Todo final de torres se decide numa pergunta de uma linha: onde fica a torre em relação ao peão passado. Atrás dele, na frente dele ou do lado dele. As três parecem escolha de gosto no meio da partida, e só uma delas melhora sozinha enquanto o peão anda.
Ponha um peão branco em a5 e a torre branca em a1. A torre enxerga a2, a3 e a4, três casas livres, com o próprio peão à frente. Empurre o peão pra a6 e a torre passa a enxergar quatro casas. Empurre pra a7 e são cinco. A torre não mexeu e ficou mais forte a cada lance do peão.
Agora inverta. A mesma torre em a8, na frente do peão de a5. Ela enxerga a7, a6 e a casa do peão. O peão avança pra a6 e sobra uma casa. Avança pra a7 e não sobra nenhuma. A peça que devia empurrar o peão virou a barreira dele, e sair da coluna passa a significar entregar o peão.
A mesma aritmética vale do outro lado do tabuleiro. Quem defende com a torre na frente do peão adversário fica colado na casa de bloqueio e joga cada lance em espera. Quem defende com a torre atrás obriga o dono do peão a guardar o peão, e mantém a torre livre pra atacar outra coisa.
Existe uma terceira posição, a torre de lado, na horizontal, cortando o rei adversário. Ela resolve outros finais e não resolve este, porque o peão que precisa andar continua sem ninguém empurrando por trás.
Por causa dessa conta, um final de torres com um peão de diferença termina em vitória ou em empate conforme uma casa só. O peão sozinho vale pouco. A coluna atrás dele vale a partida inteira, e o preço de achar a coluna certa costuma ser um único lance de aparência lenta.
A posição de hoje é a última partida de um campeonato mundial, e essa casa decidiu o título. Um dos dois jogadores achou a coluna certa no lance 54. Do outro lado, um peão que nunca chegou a coroar prendeu primeiro a torre e depois o rei.
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I A Posição do Dia
Alekhine leva a torre pra a4
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Um peão a mais, três colunas de distância do resto do tabuleiro e um lance que parece perda de tempo. Veja o que a torre ganha ao descer pra quarta fileira em vez de subir pra escoltar o peão.
Buenos Aires, novembro de 1927, trigésima quarta partida do campeonato mundial. Alekhine conduz as brancas contra Capablanca, num Gambito da Dama Recusado, e as damas deixam o tabuleiro no lance 50.
O que sobra é um final de torres com um peão de diferença. As brancas ficam com torre em d4, rei em g2 e peões em a4, f2, g3 e h4. As pretas ficam com torre em f6, rei em h7 e peões em f7, g6 e h6.
Repare no desenho antes da notação. No flanco do rei é três contra três, simétrico, sem peão passado pra nenhum lado. A vantagem inteira das brancas é o peão da coluna a, sozinho, a três colunas do peão mais próximo.
51.a5 leva o peão pra casa de onde ele ameaça andar. Capablanca responde 51...Ta6, plantando a torre na frente do peão, que é a única casa de onde ela segura o avanço sem chamar o rei preto pra ajudar.
Vêm 52.Td5 Tf6 53.Td4 Ta6, uma repetição que ganha tempo no relógio e devolve a mesma posição às brancas. E aí vem o lance da edição.
54.Ta4. A torre branca desce pra quarta fileira, na coluna a, atrás do próprio peão.
Conferido em motor a 26 lances de profundidade: 54.Ta4 avalia mais 4,1 pras brancas. A segunda melhor, 54.Td5, dá mais 4,0, e ela só vale porque volta pra a4 no lance seguinte. Todo lance que larga o plano da coluna a despenca: 54.h5 dá mais 0,33, 54.Rf3 dá mais 0,21, 54.Td3 dá mais 0,19. Na prática, empate.
O motivo cabe numa frase: de a4 a torre defende o peão de a5 sem ocupar a casa pra onde ele quer ir, e peão defendido por trás dispensa o rei branco da escolta.
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A torre atrás do peão não escolta o peão. Ela dispensa o rei da escolta, e o rei é a peça que ganha o outro lado do tabuleiro.
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Livre, o rei de Alekhine atravessa o tabuleiro: 55.Rf3, 56.Re3, 57.Rd3, 58.Rc3, 60.Rb3. Enquanto ele caminha, a torre preta fica parada em a6 por oito lances seguidos, porque sair da coluna entrega o peão de graça.
No lance 62 o rei branco dá meia-volta e cruza no sentido contrário: 62.Rd4, 63.Re5, 64.Rf4, 65.Rg5, 66.Rh6, 69.Rg7. As pretas então trocam de refém, e passa a ser o rei preto o encarregado de guardar o peão de a5, parado em a6 do lance 64 ao 76.
O peão da coluna a nunca coroou. As pretas comeram ele no lance 76, e o lance seguinte, 77.Te5, já cortava a torre preta da defesa enquanto o rei branco colhia o outro flanco: 78.Rxh5, 81.Txf7, 82.Te7.
Capablanca não voltou ao tabuleiro depois da interrupção e mandou o abandono por escrito. Alekhine fechou o mundial com seis vitórias, três derrotas e vinte e cinco empates em trinta e quatro partidas.
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II O Erro Mais Jogado
A torre que escolta por cima
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A torre na frente do próprio peão não defende o peão, não abre caminho e ainda ocupa a casa pra onde ele quer ir. Ela só tem cara de proteção.
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O lance natural, na hora da partida, é outro. Com um peão passado pra empurrar, a mão vai na torre e leva ela pra frente do peão, pra abrir a estrada e escoltar de cima. Parece cuidado com o peão, e a maioria joga assim sem pensar duas vezes.
Na mesma posição do lance 54, escoltar por cima significa 54.Td7 ou 54.Td8, com a ideia de chegar em a7 ou a8 e conduzir o peão de lá.
Conferido em motor a 26 lances, as duas dão 0,00. Empate exato. A resposta preta é 54...Txa5, e o peão que valia o título sai do tabuleiro no lance seguinte.
Torre atrás do peão: mais 4,1. Torre indo pra frente do peão: 0,00. Mesma posição, uma casa de diferença.
O primeiro motivo é o mais simples de conferir com o tabuleiro na frente: a torre na frente do peão não defende o peão. De a7 ou de a8 ela não enxerga a5, porque o próprio peão tampa a linha. A defesa que ela parecia oferecer nunca existiu. De a4 a torre ataca a casa a5 pela mesma coluna e defende de graça.
O segundo motivo aparece um pouco depois. A torre na frente ocupa exatamente a casa pra onde o peão quer ir. Cada avanço passa a exigir um lance de torre antes, e cada lance de torre é um lance que o adversário usa pra melhorar o rei dele.
O terceiro motivo fecha a armadilha. Quando o peão finalmente chega na sétima fileira, a torre na oitava não pode mais sair: sair é perder o peão na hora. Quem estava um peão acima passa a jogar com uma torre a menos, presa cuidando de um peão que não anda.
Do lado de quem defende, o erro é o espelho do mesmo desenho. Torre na frente do peão adversário gruda o defensor na casa de bloqueio. Foi por ali que Capablanca passou o final inteiro: primeiro a torre em a6, depois o rei em a6, sempre uma peça de plantão enquanto o adversário jogava com tudo.
Existe um sinal barato pra pegar o erro na sua própria partida. Se você precisa mexer a torre toda vez que quer empurrar o peão, a torre está do lado errado da coluna.
E existe um segundo sinal, ainda mais rápido: conte as casas livres da sua torre na coluna do peão. Se o número cai a cada avanço, a torre está na frente. Se sobe, está atrás.
A escolha custa um lance, e o preço é o motivo da recusa. 54.Ta4 gastou um lance inteiro pra reposicionar uma torre que já estava ativa em d4, num final em que as brancas tinham pressa. O lance tinha cara de tempo perdido e era a única coisa no tabuleiro que ganhava.
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III O Padrão que Se Repete
A coluna do peão passado é da sua torre
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A regra que decidiu o lance 54 ganhou a formulação mais conhecida quatro anos depois daquela partida, num manual alemão de xadrez, e atravessou inteira o teste dos motores.
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"A torre pertence atrás do peão passado."
Siegbert Tarrasch, Das Schachspiel, 1931
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A frase vale pros dois lados do tabuleiro, e a segunda metade é a que quase ninguém aplica. Atrás do seu peão passado, pra empurrar. Atrás do peão passado do adversário, pra segurar. Em nenhuma das duas leituras a torre fica na frente.
O motivo é aritmético, e por ser aritmético ele não envelhece. O peão que avança cria casa pra torre que está atrás dele e tira casa da torre que está na frente dele. Nenhuma geração de motor muda a contagem de casas livres de uma coluna.
1. Antes de mexer qualquer peça no final, ache o peão passado do tabuleiro, seu ou do adversário. Se houver dois, o que decide a partida é o mais distante do rei adversário.
2. Pergunte de quem é a coluna dele e leve a torre pra essa coluna, atrás do peão, mesmo que custe um lance e mesmo que a torre pareça bem colocada onde está.
3. Só então empurre o peão. Peão que anda antes da torre chegar entrega a casa de trás, e a casa de trás é justamente a que o adversário quer ocupar com a torre dele.
Existe uma exceção que vale guardar, e ela aparece justamente em peão de torre. Com o peão da coluna a já na sexta fileira, o defensor às vezes fica melhor atacando de lado, pela sexta, em vez de por trás, na defesa que leva o nome de Vancura. Fora dessa moldura estreita, a coluna atrás do peão é o lugar da torre.
O padrão transfere direto pra sua próxima partida de dez minutos. Todo final de torres com peão passado repete a mesma pergunta de uma casa, e a resposta é sempre a mesma coluna. Quem treina a pergunta ganha final que hoje empata e empata final que hoje perde.
Achar a coluna do peão passado custa um lance. Não achar custa o final inteiro.
"Na sua última partida, de que lado do peão passado estava a sua torre?"
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Quiz da edição
No lance 54 daquela trigésima quarta partida do mundial de 1927, qual jogada Alekhine escolheu e que o motor avalia em mais 4,1 pras brancas?
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