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A dama que Capablanca largou em b2
Moscou, 1914, as duas capturas possíveis terminavam na primeira fileira e Bernstein preferiu parar a partida ali mesmo.
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Bernstein x Capablanca, Moscou 1914, antes de 29...Db2
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Toda partida de nível razoável termina com o rei roqueado no canto, protegido por três peões que nunca precisaram andar. A construção é tão boa que o jogador para de olhar para ela por volta do décimo lance e só volta a olhar quando já é tarde.
O problema não está nos peões, está no teto que eles formam. Um rei em g1 com peões em f2, g2 e h2 tem exatamente zero casas de fuga na direção da segunda fileira, e a única saída que sobra é a própria primeira fileira, a mesma que as torres adversárias percorrem de ponta a ponta sem encontrar nada.
Enquanto houver uma peça de guarda na primeira fileira, o teto é confortável. Uma torre em b1, uma dama recuada, um cavalo em d2, qualquer coisa que cubra as casas de entrada mantém a estrutura em pé e o assunto fora da conta do jogador.
A fragilidade aparece no instante em que essa peça de guarda ganha uma segunda função. Ela passa a defender a primeira fileira e mais alguma coisa ao mesmo tempo, um peão em perigo, uma peça atacada, um xeque que precisa ser respondido, e nesse momento a defesa vira uma promessa que depende de a peça continuar exatamente onde está.
O ataque que explora essa promessa quase nunca precisa de material. Ele precisa de um lance que force o guarda a sair, e a forma mais limpa de forçar é oferecer algo numa casa em que a captura é obrigatória.
O remédio custa um lance e cabe em qualquer momento da partida. Empurrar o peão da torre ou o peão do cavalo uma casa abre a saída do rei, tira a primeira fileira do cardápio do adversário e transforma um mate forçado em xeque inofensivo.
O detalhe que decide é quando esse lance é jogado. Feito com calma, no meio-jogo, ele custa um tempo e resolve o problema para sempre. Feito na hora do aperto, com a torre adversária já na primeira fileira, ele simplesmente não existe mais como opção.
A posição de hoje é o exemplo mais citado do gênero, e a razão é a economia: uma dama parada numa casa em que duas peças diferentes podem capturá-la, e as duas capturas dão no mesmo desfecho.
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I A Posição do Dia
Moscou, 1914, duas capturas e um só fim
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Moscou, 1914. Ossip Bernstein, um dos enxadristas mais fortes do império russo e advogado de formação, enfrentou José Raúl Capablanca numa partida de exibição durante a passagem do cubano pela cidade. Capablanca tinha 25 anos e ainda não era campeão do mundo.
A abertura foi um gambito da dama recusado, jogado sem nenhuma extravagância pelos dois lados. As peças saíram, as trocas vieram na hora certa, e por volta do vigésimo lance o tabuleiro já tinha o desenho de uma partida equilibrada caminhando para um final tranquilo.
O que restou depois das trocas cabe numa frase. Cada lado com uma dama, as brancas com uma torre e as pretas com duas, os peões do lado do rei intactos nas duas metades, e a coluna c e a coluna d abertas no meio do tabuleiro.
Capablanca dobrou as torres na coluna d e passou a pressionar a entrada em d1. Bernstein colocou a torre em b1 para brigar pela coluna b e levou a dama para c3, uma casa ativa, de onde ela olhava a grande diagonal e o peão preto do outro lado.
O detalhe que interessa está na primeira fileira branca. O rei em g1, os peões em f2, g2 e h2 no lugar de origem, e a torre em b1 como única peça que impede uma torre preta de descer até d1 e ficar por lá.
29...Db2. A dama preta desce de b6 para b2 e para ali, no meio do campo branco, atacada pela dama de c3 e pela torre de b1 ao mesmo tempo. Nenhum xeque, nenhuma ameaça imediata de captura, apenas uma dama oferecida a duas peças diferentes.
O lance parece descuido. Duas peças atacam, nenhuma defende, e a dama vale nove pontos contra os cinco da torre que recapturaria depois.
30.Dxb2 Td1+. Se a dama branca captura, a torre preta entra em d1 com xeque. A torre de b1 é a única peça que pode responder, e ela responde do único jeito possível.
31.Txd1 Txd1 mate. A torre branca captura em d1, a segunda torre preta recaptura, e a primeira fileira acabou. O rei branco não tem g2, não tem f1 nem h1, e a dama que estava em b2 não alcança nenhuma casa de bloqueio.
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Vale trocar a ordem das capturas para ver que o resultado não muda. Depois de 30.Txb2 Td1+, a torre branca já não está em b1 e a única peça capaz de se interpor é a dama de c3, que vai para e1 e é capturada com mate na jogada seguinte.
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30.Txb2 Td1+ 31.De1 Txe1 mate. As duas capturas chegam no mesmo lugar por caminhos diferentes, e o que as une é a casa que os peões brancos nunca abriram.
Bernstein não jogou nenhum dos dois lances. Ele olhou a posição, entendeu que a torre de b1 e a dama de c3 estavam defendendo a primeira fileira uma na ausência da outra, e parou a partida ali mesmo, sem tocar na dama preta.
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II O Erro Mais Jogado
Adiar o lance que abre a saída do rei
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O erro não é deixar a torre em b1 ou a dama em c3. É passar trinta lances com o rei sem casa de fuga e tratar a primeira fileira como um problema que só existe quando a torre adversária já está lá dentro.
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A conta que o jogador faz durante a partida é sempre de material e de espaço. Peça ativa, coluna aberta, peão passado, iniciativa. A saída do rei não entra em nenhuma dessas categorias, então ela fica sem dono até o momento em que passa a valer a partida inteira.
O peão de fuga tem nome antigo no vocabulário do jogo. Abrir a casa custa um lance, não enfraquece nada em posição fechada e, com o rei em g1, o lance certo é quase sempre o peão da torre andando uma casa, porque ele mexe menos com a diagonal que aponta para o rei.
QUANDO ABRIR A CASA DE FUGA
1. Assim que as damas saírem do centro e as colunas começarem a abrir. Coluna aberta é convite para torre, e torre na coluna aberta é o começo de toda entrada na primeira fileira.
2. Antes de mandar a última peça de guarda para uma tarefa nova. Se a torre que cobre a primeira fileira vai atacar um peão do outro lado, a casa de fuga precisa estar aberta antes de a torre sair, nunca depois.
3. Nunca com a torre adversária já instalada. Com uma torre preta em d1, empurrar o peão não abre saída nenhuma: o rei continua preso na primeira fileira e o lance só entrega um tempo de graça.
O terceiro item é o que separa o jogador que entendeu o padrão do que só decorou o nome dele. A casa de fuga é medida preventiva, e medida preventiva jogada tarde não é medida nenhuma.
Do lado de quem defende, existe um segundo erro que é mais sutil e aparece em nível mais alto. O jogador conta a primeira fileira como defendida porque tem uma peça lá, sem checar quantas outras funções essa peça acumulou desde que chegou.
Uma torre em b1 que também segura a coluna b, um cavalo em d2 que também defende um bispo, uma dama recuada que também protege um peão do lado da dama. Toda peça com duas tarefas é uma peça que o adversário pode ocupar com a primeira para ganhar a segunda.
Na posição de hoje as duas peças brancas capazes de cobrir d1 estavam ocupadas com a mesma coisa: capturar a dama que apareceu em b2. A oferta não foi um sacrifício de material, foi um convite para as duas se afastarem juntas.
A régua prática cabe numa pergunta que se responde em cinco segundos. Antes de mover a peça que cobre a primeira fileira, veja se o rei tem para onde ir depois que ela sair, e se não tiver, gaste o lance no peão em vez de gastar a partida.
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