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ED 020

A dama que Capablanca largou em b2

Moscou, 1914, as duas capturas possíveis terminavam na primeira fileira e Bernstein preferiu parar a partida ali mesmo.

Posição com o rei branco em g1, dama em c3 e torre em b1, contra a dama preta em b6 e as torres pretas dobradas na coluna d.

Bernstein x Capablanca, Moscou 1914, antes de 29...Db2

 

Toda partida de nível razoável termina com o rei roqueado no canto, protegido por três peões que nunca precisaram andar. A construção é tão boa que o jogador para de olhar para ela por volta do décimo lance e só volta a olhar quando já é tarde.

O problema não está nos peões, está no teto que eles formam. Um rei em g1 com peões em f2, g2 e h2 tem exatamente zero casas de fuga na direção da segunda fileira, e a única saída que sobra é a própria primeira fileira, a mesma que as torres adversárias percorrem de ponta a ponta sem encontrar nada.

Enquanto houver uma peça de guarda na primeira fileira, o teto é confortável. Uma torre em b1, uma dama recuada, um cavalo em d2, qualquer coisa que cubra as casas de entrada mantém a estrutura em pé e o assunto fora da conta do jogador.

A fragilidade aparece no instante em que essa peça de guarda ganha uma segunda função. Ela passa a defender a primeira fileira e mais alguma coisa ao mesmo tempo, um peão em perigo, uma peça atacada, um xeque que precisa ser respondido, e nesse momento a defesa vira uma promessa que depende de a peça continuar exatamente onde está.

O ataque que explora essa promessa quase nunca precisa de material. Ele precisa de um lance que force o guarda a sair, e a forma mais limpa de forçar é oferecer algo numa casa em que a captura é obrigatória.

O remédio custa um lance e cabe em qualquer momento da partida. Empurrar o peão da torre ou o peão do cavalo uma casa abre a saída do rei, tira a primeira fileira do cardápio do adversário e transforma um mate forçado em xeque inofensivo.

O detalhe que decide é quando esse lance é jogado. Feito com calma, no meio-jogo, ele custa um tempo e resolve o problema para sempre. Feito na hora do aperto, com a torre adversária já na primeira fileira, ele simplesmente não existe mais como opção.

A posição de hoje é o exemplo mais citado do gênero, e a razão é a economia: uma dama parada numa casa em que duas peças diferentes podem capturá-la, e as duas capturas dão no mesmo desfecho.

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I  A Posição do Dia

Moscou, 1914, duas capturas e um só fim

Moscou, 1914. Ossip Bernstein, um dos enxadristas mais fortes do império russo e advogado de formação, enfrentou José Raúl Capablanca numa partida de exibição durante a passagem do cubano pela cidade. Capablanca tinha 25 anos e ainda não era campeão do mundo.

A abertura foi um gambito da dama recusado, jogado sem nenhuma extravagância pelos dois lados. As peças saíram, as trocas vieram na hora certa, e por volta do vigésimo lance o tabuleiro já tinha o desenho de uma partida equilibrada caminhando para um final tranquilo.

O que restou depois das trocas cabe numa frase. Cada lado com uma dama, as brancas com uma torre e as pretas com duas, os peões do lado do rei intactos nas duas metades, e a coluna c e a coluna d abertas no meio do tabuleiro.

Capablanca dobrou as torres na coluna d e passou a pressionar a entrada em d1. Bernstein colocou a torre em b1 para brigar pela coluna b e levou a dama para c3, uma casa ativa, de onde ela olhava a grande diagonal e o peão preto do outro lado.

O detalhe que interessa está na primeira fileira branca. O rei em g1, os peões em f2, g2 e h2 no lugar de origem, e a torre em b1 como única peça que impede uma torre preta de descer até d1 e ficar por lá.

29...Db2. A dama preta desce de b6 para b2 e para ali, no meio do campo branco, atacada pela dama de c3 e pela torre de b1 ao mesmo tempo. Nenhum xeque, nenhuma ameaça imediata de captura, apenas uma dama oferecida a duas peças diferentes.

O lance parece descuido. Duas peças atacam, nenhuma defende, e a dama vale nove pontos contra os cinco da torre que recapturaria depois.

30.Dxb2 Td1+. Se a dama branca captura, a torre preta entra em d1 com xeque. A torre de b1 é a única peça que pode responder, e ela responde do único jeito possível.

31.Txd1 Txd1 mate. A torre branca captura em d1, a segunda torre preta recaptura, e a primeira fileira acabou. O rei branco não tem g2, não tem f1 nem h1, e a dama que estava em b2 não alcança nenhuma casa de bloqueio.

Vale trocar a ordem das capturas para ver que o resultado não muda. Depois de 30.Txb2 Td1+, a torre branca já não está em b1 e a única peça capaz de se interpor é a dama de c3, que vai para e1 e é capturada com mate na jogada seguinte.

30.Txb2 Td1+ 31.De1 Txe1 mate. As duas capturas chegam no mesmo lugar por caminhos diferentes, e o que as une é a casa que os peões brancos nunca abriram.

Bernstein não jogou nenhum dos dois lances. Ele olhou a posição, entendeu que a torre de b1 e a dama de c3 estavam defendendo a primeira fileira uma na ausência da outra, e parou a partida ali mesmo, sem tocar na dama preta.

 
 

II  O Erro Mais Jogado

Adiar o lance que abre a saída do rei

O erro não é deixar a torre em b1 ou a dama em c3. É passar trinta lances com o rei sem casa de fuga e tratar a primeira fileira como um problema que só existe quando a torre adversária já está lá dentro.

A conta que o jogador faz durante a partida é sempre de material e de espaço. Peça ativa, coluna aberta, peão passado, iniciativa. A saída do rei não entra em nenhuma dessas categorias, então ela fica sem dono até o momento em que passa a valer a partida inteira.

O peão de fuga tem nome antigo no vocabulário do jogo. Abrir a casa custa um lance, não enfraquece nada em posição fechada e, com o rei em g1, o lance certo é quase sempre o peão da torre andando uma casa, porque ele mexe menos com a diagonal que aponta para o rei.

QUANDO ABRIR A CASA DE FUGA

1. Assim que as damas saírem do centro e as colunas começarem a abrir. Coluna aberta é convite para torre, e torre na coluna aberta é o começo de toda entrada na primeira fileira.

2. Antes de mandar a última peça de guarda para uma tarefa nova. Se a torre que cobre a primeira fileira vai atacar um peão do outro lado, a casa de fuga precisa estar aberta antes de a torre sair, nunca depois.

3. Nunca com a torre adversária já instalada. Com uma torre preta em d1, empurrar o peão não abre saída nenhuma: o rei continua preso na primeira fileira e o lance só entrega um tempo de graça.

O terceiro item é o que separa o jogador que entendeu o padrão do que só decorou o nome dele. A casa de fuga é medida preventiva, e medida preventiva jogada tarde não é medida nenhuma.

Do lado de quem defende, existe um segundo erro que é mais sutil e aparece em nível mais alto. O jogador conta a primeira fileira como defendida porque tem uma peça lá, sem checar quantas outras funções essa peça acumulou desde que chegou.

Uma torre em b1 que também segura a coluna b, um cavalo em d2 que também defende um bispo, uma dama recuada que também protege um peão do lado da dama. Toda peça com duas tarefas é uma peça que o adversário pode ocupar com a primeira para ganhar a segunda.

Na posição de hoje as duas peças brancas capazes de cobrir d1 estavam ocupadas com a mesma coisa: capturar a dama que apareceu em b2. A oferta não foi um sacrifício de material, foi um convite para as duas se afastarem juntas.

A régua prática cabe numa pergunta que se responde em cinco segundos. Antes de mover a peça que cobre a primeira fileira, veja se o rei tem para onde ir depois que ela sair, e se não tiver, gaste o lance no peão em vez de gastar a partida.

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III  O Padrão que Se Repete

A peça que defende a primeira fileira

O padrão não pertence a Capablanca nem a esta partida. Ele aparece sempre que três condições se encontram: rei roqueado com os três peões parados, uma coluna aberta que chega na primeira fileira, e um defensor que pode ser desviado da casa de entrada.

"A ameaça é mais forte que a execução."

Aron Nimzowitsch, Meu Sistema, 1925.

A frase costuma ser lida como conselho sobre paciência, e ela descreve exatamente o mecanismo da primeira fileira. O mate quase nunca é executado: ele fica de pé como ameaça, obriga o adversário a manter uma peça amarrada na defesa e ganha material em outro canto do tabuleiro.

O desvio do defensor aparece em três formatos, e vale reconhecer os três de longe.

1. Oferta na casa em que a captura é obrigatória. É o caso de b2. A dama entra numa casa atacada por duas peças, e as duas capturas tiram o guarda da primeira fileira ao mesmo tempo.

2. Ataque a uma segunda tarefa do defensor. Uma torre que cobre a primeira fileira e defende um peão perde uma das duas funções no momento em que o peão é atacado por uma peça a mais.

3. Xeque intermediário que muda a geometria. Um xeque forçado que obriga o rei ou o defensor a mudar de casa costuma valer mais que um lance de ataque direto, porque a resposta é obrigatória e o tempo é ganho sem discussão.

A defesa contra os três é a mesma e é ridiculamente barata. O peão da torre uma casa à frente resolve os três formatos de uma vez, porque nenhum deles funciona contra um rei que tem casa de fuga na segunda fileira.

Existe uma versão do padrão para quem defende. Com o rei adversário preso na primeira fileira, um final perdido pode virar empate por xeque perpétuo, porque a peça que dá xeque não precisa de apoio nenhum.

Capablanca escreveu que a maioria das partidas se decide por um detalhe de posição que já estava no tabuleiro dez lances antes de alguém notar. A dama em b2 não criou a fraqueza, ela apenas cobrou uma fraqueza que existia desde o roque, e que custava um único lance para deixar de existir.

Antes de mover a peça que guarda a primeira fileira, pergunte não o que ela ataca, mas o que ela deixa de defender no instante em que sai da casa.

 
 
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