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A dama que Boden entregou em c3
Londres, 1853, a dama preta cai em c3, o peão de b2 é obrigado a capturar e os dois bispos fecham a conta na diagonal do rei branco.
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Schulder x Boden, Londres 1853, após 15.bxc3
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Quem roca no grande costuma dormir tranquilo. O rei vai para c1, fica atrás dos peões de a2, b2 e c2, e a torre de d1 já nasce apontada para o centro sem precisar de um lance de arrumação.
A estrutura tem mais peões guardando o rei do que a do roque pequeno, e a torre entra no jogo um tempo antes. Em quase toda partida com roques opostos, quem rocou no grande começa o ataque com um tempo de vantagem.
O preço vem depois, e ele é geométrico. O rei em c1 divide a casa com uma diagonal comprida que atravessa o tabuleiro inteiro, a diagonal a3 f8, e essa diagonal chega em c1 sem tocar em nenhum peão do próprio roque.
O peão de b2 é a única peça que atrapalha, e ele atrapalha de um jeito frágil. Basta obrigá-lo a capturar alguma coisa em c3 ou em a3 para a diagonal abrir de vez. Peão que captura sai da coluna, e peão que sai da coluna nunca volta.
O segundo pedaço do desenho é a diagonal clara b1 h7, a mesma que os manuais ensinam a usar contra o roque pequeno. Vista do outro lado, ela termina em b1, que por acaso é a única casa de fuga do rei que rocou no grande.
Junte as duas e o quadro fica montado. Um bispo escuro chegando em a3 dá xeque no rei de c1. Um bispo claro olhando de f5 para b1 tira a fuga. O rei não tem terceira casa, e nenhum defensor cobre as duas diagonais ao mesmo tempo, porque elas são de cores diferentes.
Falta um detalhe, e ele é o mais caro da conta. Alguém precisa arrancar o peão de b2 do lugar, e o preço dessa remoção costuma ser a peça mais forte do tabuleiro, entregue numa casa onde a captura é obrigatória.
A posição de hoje resolve o problema no lance mais direto que existe, num salão de Londres em 1853, com a dama preta indo parar exatamente na casa em que o peão branco não tem escolha a não ser comê-la.
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I A Posição do Dia
Londres, 1853, a dama cai em c3
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Londres, 1853. De um lado das brancas, um jogador chamado Schulder, de quem a história do xadrez guardou pouco mais que o sobrenome. Do outro, Samuel Boden, um dos melhores enxadristas ingleses da época e o homem que emprestou o nome ao padrão.
A abertura é um Gambito do Rei recusado com cara de partida romântica: 1.e4 e5 2.Cf3 d6 3.c3 f5 4.Bc4 Cf6 5.d4 fxe4. As pretas abrem a coluna f cedo e aceitam entrar numa posição áspera, sem nenhuma pretensão de segurança.
6.dxe5 exf3 7.exf6 Dxf6 8.gxf3. Duas capturas em cadeia limpam o centro. As brancas ficam com a estrutura de peões quebrada no lado do rei, com peões dobrados em f2 e f3, e a dama preta se instala em f6 sem ter gastado um lance para chegar lá.
8...Cc6 9.f4 Bd7 10.Be3 O-O-O. As pretas rocam no grande. O rei preto vai para c8, a torre chega em d8 e a partida vira um duelo de ataques em lados opostos do tabuleiro.
11.Cd2 Te8 12.Df3 Bf5. O bispo claro das pretas sai de d7 e ocupa f5. Da casa f5, ele olha a diagonal inteira até b1, e a casa b1 é a fuga natural do rei branco quando ele rocar no grande.
13.O-O-O. As brancas rocam do mesmo lado, e o rei branco senta em c1, exatamente no fim da diagonal a3 f8, com o peão de b2 como único obstáculo.
13...d5 14.Bxd5. As pretas avançam o peão central e as brancas capturam, ganhando material e abrindo mais uma linha. Do ponto de vista da contagem de peças, as brancas estão bem.
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Só que a posição inteira agora depende de um peão. O bispo preto de f8 nunca se moveu, o bispo preto de f5 já está mirando b1, e o peão de b2 é a única coisa entre o rei branco e a diagonal escura.
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14...Dxc3+. A dama preta captura o peão de c3 e dá xeque, oferecendo a peça mais valiosa do tabuleiro para um peão. O lance não ameaça mate direto: ele obriga uma captura.
15.bxc3. Capturar com o peão de b2 é praticamente forçado, porque o rei em c1 está em xeque e a dama não pode ser tomada de outra forma sem custo maior. O peão sai da coluna b, e a diagonal a3 c1 abre.
15...Ba3#. O bispo de f8 percorre a diagonal inteira e para em a3, encostado, dando xeque no rei de c1. O rei não pode capturar, porque a3 está fora do alcance dele. Não pode ir para b1, porque o bispo de f5 cobre a casa. Não pode ir para d2, porque o próprio cavalo branco ocupa a casa. E nenhuma peça branca alcança a3 nem a diagonal para interpor.
Quinze lances, uma dama entregue por um peão, e o rei branco fechado entre dois bispos que nunca se tocaram. As pretas terminaram a partida com uma dama e um peão a menos no papel.
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II O Erro Mais Jogado
Trocar o bispo que fecha a tesoura
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O erro não é rocar no grande. É rocar no grande depois de já ter deixado ir o bispo que guarda as casas escuras, ou depois de mexer o peão de b2, e tratar o problema como se fosse só uma questão de contar peças.
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A cena aparece em partida de clube com uma frequência que assusta. As brancas rocam no grande, o adversário desenvolve os dois bispos para diagonais compridas, e o jogador de brancas continua contando material como se o rei estivesse em g1.
O rei em c1 tem duas casas de fuga no papel, b1 e d1, e as duas costumam sumir sozinhas. A casa d1 fica ocupada pela própria torre no instante do roque. A casa b1 é coberta por qualquer bispo claro na diagonal b1 h7, que é justamente onde o adversário adora colocar o bispo de c8.
AS TRÊS CONDIÇÕES DO MATE DE BODEN
1. Bispo escuro com caminho livre até a3 ou até b2. Ele precisa chegar em um lance e dando xeque, sem escala e sem ser capturado. É a peça que fecha a partida.
2. Bispo claro cobrindo b1. De f5, de g6 ou de h7, tanto faz. O que importa é a casa de fuga estar morta antes de o xeque acontecer.
3. Peão de b2 removido ou desviado. Enquanto ele estiver em b2, a diagonal escura está fechada, e é essa remoção que costuma custar a dama.
A parte mais cara do padrão é a terceira condição, e ela é a que o atacante mais erra de sequência. Sacrificar a dama em c3 sem os dois bispos já posicionados não é combinação, é doação: o peão captura, a diagonal abre, e não existe ninguém para entrar por ela.
Na partida de hoje, o bispo de f8 nunca precisou se mexer antes da hora, e o bispo claro já estava em f5 desde o décimo segundo lance. A dama só caiu em c3 quando as duas diagonais já estavam prontas ao mesmo tempo.
Do lado de quem defende, o erro tem outro nome e é mais fácil de corrigir. O jogador troca o bispo escuro numa troca aparentemente boa, ou empurra o peão de b para b3 para expulsar uma peça, e não percebe que acabou de vender a única cobertura das casas escuras ao redor do rei.
A régua de defesa cabe numa frase. Antes de rocar no grande, olhe as duas diagonais que terminam em c1 e em b1 e conte quem as controla. Se o adversário controla as duas e você não tem o bispo escuro para disputar, o rei fica no centro por mais um lance ou vai para o outro lado.
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III O Padrão que Se Repete
Dois bispos cruzados e um peão desviado
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O padrão não pertence a nenhuma abertura, e é por isso que ele reaparece em posições que não se parecem em nada. Ele nasce sempre que três elementos aparecem juntos: rei rocado no grande, bispo do adversário mirando a3 ou b2, e bispo claro do adversário mirando b1.
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"Posso ver as combinações tão bem quanto Alekhine, mas não consigo chegar às mesmas posições."
Rudolf Spielmann, A Arte do Sacrifício no Xadrez, 1935.
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A frase resume a diferença inteira entre saber o desenho e conseguir usá-lo. O mate de Boden não é difícil de calcular quando a posição está pronta, e chegar até a posição pronta é o trabalho de verdade.
O reconhecimento tem quatro passos, e nenhum deles exige cálculo longo.
1. Confirme os dois bispos vivos e nas diagonais certas. Um bispo escuro chegando em a3 ou b2, um bispo claro na diagonal b1 h7. Se um dos dois já foi trocado, o padrão morre e o material entregue nunca volta.
2. Ache a casa de fuga antes de mexer na dama. O rei em c1 precisa estar sem b1 e sem d1. A torre do próprio roque costuma resolver d1 sozinha, e b1 é serviço do bispo claro.
3. Encontre o desvio do peão de b2. Pode ser a dama em c3, pode ser um cavalo em a3 que o peão tem vontade de comer, pode ser uma torre. O lance precisa forçar a captura, não convidar para ela.
4. Confira quem defende a3. Cavalo branco em c2, dama branca com acesso rápido a a3 ou uma torre na segunda fileira mudam a conta inteira, porque o bispo de a3 vira uma peça capturada em vez de um mate.
A conta de material é a parte que confunde quem está aprendendo o padrão. A dama vale nove pontos e o sacrifício entrega os nove por um peão, sem receber nada de volta em peça.
O que se compra não é material, é a ausência de casa para o rei. Xeque-mate encerra a contagem, e a diferença de nove pontos nunca chega a ser cobrada.
O padrão volta em duas paisagens que vale reconhecer de longe. A primeira é a Defesa Caro Kann e as siciliana com roques opostos, quando as brancas rocam no grande e o bispo preto de c8 já está em f5 antes de qualquer plano.
A segunda é qualquer posição em que o peão de b2 já capturou alguma coisa em c3 por conta própria, numa troca que pareceu banal. A diagonal fica aberta e ninguém repara, porque a captura aconteceu vinte lances antes do xeque.
A pergunta antes de rocar no grande é sempre a mesma. Não é quantos peões estão na frente do rei, é quantas casas escuras ao redor dele ainda têm defensor depois que o peão de b2 for obrigado a capturar.
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Guia Xadrez em Dia · Novo
Duas Aberturas e Ponto Final
O Mapa da Resposta Única que cobre qualquer lance do adversário e encerra o estudo sem fim.
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Quiz da edição
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Quem jogava de brancas contra Samuel Boden na partida de Londres, 1853, que batizou o padrão de mate?
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